ZIDANES Y PAVONES
Ronaldo tem o direito de se sentir desrespeitado. Tem o direito de sair. Não tem o direito de sair sem consequências enquanto outros as sofreram
17 Out 2026 | 12:07
Ronaldo tem o direito de se sentir desrespeitado. Tem o direito de sair. Não tem o direito de sair sem consequências enquanto outros as sofreram
Há regulamento para uns e mal-entendido para outros.
Em 2011 Ricardo Carvalho abandonou o estágio na véspera do Chipre. A Federação, então presidida por Fernando Gomes, aplicou-lhe um ano de suspensão. Era metade da pena máxima prevista. O jogador só regressou três anos depois, já com Fernando Santos.
Quinze anos volvidos o artigo 160.º do Regulamento Disciplinar da FPF continua a existir. Diz, com clareza, que o jogador regularmente convocado que abandone ou não compareça injustificadamente a treino ou actividade das selecções nacionais "é sancionado com suspensão de 1 a 6 meses". Acrescenta que a ausência determina suspensão preventiva automática.
No dia 30 de Setembro de 2026 Cristiano Ronaldo deixou o Parken, foi ao hotel buscar as malas e partiu de avião privado para Madrid. Tinha conversado com o presidente Pedro Proença. Confirmou-o por escrito. Não anunciou reforma definitiva. Limitou-se a abandonar aquele estágio.
Quatro dias depois Proença classificou tudo de "mal-entendido" e abriu a porta ao regresso em Novembro.
Não se conhece processo disciplinar. Não se conhece suspensão preventiva. Conhece-se apenas a linguagem de quem prefere a tranquilidade ao precedente. O mesmo regulamento que serviu para castigar um central de 33 anos parece não servir para o capitão de 41. A diferença não está no texto. Está no nome.
A FPF de 2026 escolheu a comodidade política em vez da coerência institucional.
Ronaldo tem o direito de se sentir desrespeitado. Tem o direito de sair. Não tem o direito de sair sem consequências enquanto outros as sofreram. Proença tem o direito de mediar. Não tem o direito de transformar o artigo 160.º em letra morta só porque o jogador em causa é o maior da história portuguesa.
Quando a regra depende do tamanho do nome deixa de ser regra.
Fica o aviso para a próxima geração. A selecção pode ser casa de afectos. Não pode ser casa sem medidas iguais.
André Carreira de Figueiredo.
Sócio n.º 26.518-0 Scouting do Sporting Clube de Portugal (2006-2010).
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