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ALCOCHETE E O AGUARDADO EPÍLOGO
Sobre a readmissão de Bruno de Carvalho, pois se estive contra a sua expulsão, votarei favoravelmente a qualquer iniciativa para a sua readmissão.
05 Jun 2020, 09:00

Bruno de Carvalho foi absolvido da acusação pelos crimes ocorridos em Alcochete, por ocasião da invasão da Academia, com o desenlace que se conhece.

Este facto, para qualquer Sportinguista, só pode ser motivo de regozijo, já que, se fosse verdade o envolvimento do antigo presidente nos eventos de Alcochete, tal seria um sinal extremamente negativo.

Assistiu-se, logo nos dias que se seguiram à decisão, ao desfilar de argumentos tendentes a justificar que a sanção de expulsão aplicada ao associado Bruno de Carvalho não se fundava nos acontecimentos de Alcochete.

Se formalmente isso até pode ser verdade, é inegável que as motivações que desencadearam todo o processo de demissões, quer do CD e CF, quer da MAG (com o requinte de, afinal, ninguém se ter demitido) é impulsionado pelo sucedido em Alcochete. E não tenho qualquer dúvida de que foi a convicção de culpa do antigo presidente (pelos tristes eventos) que sustentaram o sentido de voto dos associados que decidiram pela expulsão.

Por inerência, todo o arregimentar de esforços, no sentido de destituir o CD, teve lugar na mesma sequência e com as mesmas motivações. Aliás, as rescisões dos atletas, ainda que posteriores aos factos que são invocados como razão para o processo de destituição, são elencadas no fundamento para a realização da AGE de então.

Mesmo que se considere que a motivação para a destituição do CD é anterior aos factos de Alcochete (lembro que, no mês de Abril de 2018, o PMAG veio a público falar em falta de condições do Presidente do CD para continuar a exercer funções), Alcochete é o pretexto para tudo o que se lhe seguiu.

É certo que muitas pessoas contestavam o comportamento do ex-Presidente Bruno de Carvalho, o que, de certa forma, é sinal de insatisfação. Só que, sem Alcochete, nunca teria surgido o pretexto capaz de convencer uma maioria de associados da censurabilidade de Bruno de Carvalho.

Alcochete serviu, por exemplo, para o comportamento errático do ex-PMAG, assim como serviu para se expressarem opiniões negativas quanto ao desejo de demissão do Presidente da altura (pré e pós os acontecimentos de Alcochete). Ter opinião ou desejos não é ilegítimo. Mas é discutível que pessoas que expressaram este tipo de opinião aceitem fazer parte de uma comissão de fiscalização que vai julgar quem se deseja (expressamente) que deixe de liderar o Clube.

Alcochete trouxe, simultaneamente, o pretexto e a oportunidade.

Sobre a expulsão de Bruno de Carvalho, manifesto que sempre foi a minha opinião contrária a tal acto. Independentemente dos momentos de menor lucidez do ex-Presidente, os seus bons actos sempre serviram para trazer vida à Instituição.

Sobre Alcochete, por defeito profissional, preferi sempre esperar pela realização do julgamento para formar opinião, até porque Bruno de Carvalho deveria gozar da presunção de inocência, como qualquer outro arguido. Mas, a avaliar pelo que fui ouvindo no dia da AG em que foi votada a expulsão de Bruno de Carvalho, era perceptível, de forma muito clara, que muitas das pessoas, que pretendiam votar favoravelmente à sua expulsão, fundavam essa vontade na convicção sobre a sua culpa pela invasão de Alcochete. Infelizmente, os julgamentos fora das salas de audiências dos Tribunais são cada vez mais comuns, fruto de uma ávida intervenção dos órgãos de comunicação social. Este caso foi apenas mais um que, por ser mediático, mereceu essa atenção perniciosa.

Pelas descrições sobre o que se ia passando nas sessões de julgamento, tornadas públicas pelos órgãos de comunicação social, fui formando a opinião de que o ex-Presidente não seria condenado, uma vez que a prova produzida em nada o implicava nos factos de que era acusado. É justo dizer-se que nem sequer a sua absolvição se funda em qualquer espécie de dúvida, que o beneficiaria enquanto arguido. Foi absolvido, singelamente. Mas a vontade de condenar o homem é tanta, que até se formularam opiniões sobre as regras de processo penal. Nomeadamente, houve gente que se permitiu defender que o Ministério Público se deveria fazer representar em Tribunal pelo mesmo magistrado que teve intervenção na fase de investigação, sem perceberem que o Ministério Público não tem por função obter condenações, mas sim participar na descoberta da verdade material, que pode resultar numa condenação ou numa absolvição. Causou estranheza que, num acto de normalidade, o MP tenha expressado uma posição tendente à absolvição de Bruno de Carvalho, quando tal posição apenas reflectia a análise da prova produzida em audiência de julgamento. E se da prova produzida nada resultava que pudesse incriminar o arguido, o MP age em conformidade com essa realidade, sempre com intuito de “oferecer” verdadeira justiça ao povo.

Sobre a readmissão de Bruno de Carvalho, pois se estive contra a sua expulsão, votarei favoravelmente a qualquer iniciativa para a sua readmissão.

Não quer isto dizer que o queira ver novamente na função de Presidente do CD. Isso é uma história completamente diferente mas creio que o impedimento imposto a Bruno de Carvalho e a Carlos Vieira, de se apresentarem ao acto eleitoral de 2018, representou um enorme prejuízo para a vida da Instituição, já que foi sonegado aos associados resolver esse cisma na urna eleitoral. E desse facto, quem teve intervenção nesse sentido não pode lavar as mãos, seja qual for a razão virtual que invoque.

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