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E É PENA!
Hoje e sempre, o Sporting deve honrar o seu passado, tudo o que construiu, os seus valores eternos, a sua mística ímpar e contagiante, os seus símbolos, as suas gentes e as suas glórias
17 Jan 2023, 16:38

Sou de uma época que já me autoriza (digo eu…) pensar o nosso clube para o futuro, claro, mas sem desprezar nem tentar apagar o passado. Hoje e sempre, o Sporting deve honrar o seu passado, tudo o que construiu, os seus valores eternos, a sua mística ímpar e contagiante, os seus símbolos, as suas gentes e as suas glórias.

Honrar tudo isso para sentir que o seu futuro, o nosso futuro, tem alicerces fortes de que muito nos orgulhamos. Mas só a união e o diálogo nos poderão manter como um dos maiores clubes da Europa e do Mundo. Na diversidade de ideias e projetos, no respeito por quem traz este clube no coração e na garganta há muitos anos, na democraticidade dos nossos atos coletivos, nas vitórias e nos revezes, no ecletismo que justifica o nosso estatuto de enorme potência desportiva no mundo.

Vem isto a propósito de uma série de factos e decisões deste Conselho Diretivo que parece, ou melhor, que estão a contrariar os conceitos que atrás referi.

Há quem tenha tratado, e bem, em anteriores artigos de opinião neste espaço, muitos destes assuntos dando-lhes o destaque merecido e oportuno. Não tenho por objetivo neste meu texto repetir o que já foi referido nem, muito menos, cair na crítica fácil. Aceitem o que aqui escrevo como um desabafo sentido e sincero. Penso interpretar também a opinião de todos aqueles que se interessam muito pelo clube no seu todo e não se limitam a ir a Alvalade ver e aplaudir, às vezes a assobiar, a nossa equipa de futebol, como se o nosso clube fosse ou quiséssemos que seja, apenas e só, um clube de futebol como um ex-presidente de triste e má memória advogava e ainda advoga.

As confusões criadas com os GOA, as ditas claques, retiraram do nosso estádio, e até de estádios alheios onde os nossos atletas lutam pela camisola que envergam, aquela alegria, aquele colorido e encanto de cânticos arrebatadores e empolgantes de outros tempos não muito distantes. Por vezes com excessos e comportamentos reprováveis, admito, fruto próprio da juventude entusiasmada ou desgostosa e muitas vezes mal liderada. Mas fica-me a saudade desses espetáculos ímpares que o sector sul nos dava em tantos jogos. Por curiosidade registo aqui que as claques no nosso clube nasceram na presidência de Joaquim Oliveira Duarte, na época de 1933/34 (!); e mereceram, desse presidente, o comentário que transcrevo: …tiveram alguns consócios a feliz iniciativa de constituir uma falange que nos campos de futebol apoiam a nossa primeira categoria. Dessa falange nasceram as claques do nosso clube e contagiaram muitos outros adeptos dos demais clubes portugueses. O Sporting era o clube que, antes das recentes decisões deste Conselho Diretivo, mais elementos tinha registados nas suas quatro claques organizadas. O tempo, e se calhar a falta de sensibilidade e de bom senso, fez mudar aquela realidade. E é pena!

E que dizer do recente desinvestimento desportivo? Para não falar do futebol, fazendo, no entanto, votos para que Rúben Amorim não venha a ser vítima de mais uma traição neste mercado de janeiro, ocupo-me, por exemplo, da extinção do ciclismo, entre outras, que tantos ídolos do povo e tantos títulos deu ao nosso clube. Ainda me lembro da chegada dos corredores à pista do velhinho Estádio José Alvalade, depois de galgarem a tremenda Calçada de Carriche, a entrarem triunfantes na pista emoldurada por uma multidão como não se vê hoje em dia na maior parte dos jogos de futebol. Felizmente, continuamos a ter as cinco modalidades de pavilhão, mas, como é fácil de constatar, perdemos a hegemonia a que, em tempos passados e não muito distantes, estávamos habituados e que nos dava quase todos os títulos de cada época. Hoje, após terem sido dispensados alguns dos nossos melhores atletas e treinadores, contentarmo-nos a ganhar apenas um ou outro título e a perder a maioria deles. Interrogo-me, até, sobre a extinção de algumas modalidades em que alcançámos títulos europeus e mundiais! Desconheço, confesso, os objetivos e os contornos destes desinvestimentos, mas, no mínimo, é muito preocupante. E é pena!

Quando foi de novo implementado o nosso futebol feminino, (depois da sua criação em outubro de 1991 e da sua extinção em agosto de 1995 pela Direção de Santana Lopes), na época de 2016/17, ganhámos sempre tudo o que havia para ganhar. E assim foi durante alguns anos. Depois, os nossos eternos rivais seguiram o nosso exemplo. Construíram uma equipa fortíssima e aproveitando a nossa estagnação e delapidação do plantel e treinador, passaram eles e outro clube, a conquistar, em cada época, todos os títulos, deixando-nos quase sempre em lugares secundários da tabela. Que queda em relação a anos não muito distantes! E é pena.

Fomos pioneiros na Web. O Sporting foi o 1º dos três “grandes” a ter um sítio oficial na internet. O formato original estreou-se em 1999 e foi evoluindo ao longo dos primeiros anos. Porém, e ao que me dizem os entendidos na matéria, hoje em dia estaremos já muito atrás dos nossos rivais nas novas plataformas, naquilo a que se convencionou chamar a transição digital, com as soluções indispensáveis na gestão comercial e não só, porque parámos, estagnámos e não foi entendido o quanto custa o atraso entretanto acontecido. E porquê? Porque aconteceu esta estagnação? Não acompanhámos, seguramente, os novos tempos. E é pena!

E são estes alguns dos incontestáveis factos, e muitos outros também, que vão preocupando quem pensa num Sporting global, eclético, arrumado, investidor, dinâmico, descomplexado, virado para o futuro e para a modernidade e não num clube resignado, atávico, medroso, afastado dos sócios (a última Assembleia Geral a que assisti, com a nova metodologia em má hora inventada, foi simplesmente confrangedora), litigioso (não teria sido possível gerir o conflito com as claques de outra forma sem os radicalismos usados? Estou em crer que sim.), com uma desastrada comunicação com a única exceção chamada Rúben Amorim, enfim, a mim, um velho sportinguista com quase 74 anos de sócio, todas estas coisas, muitas delas já dissecadas, repito, por gente de grande qualidade e paixão clubística, me fazem confusão e entristecem. E tenho pena.

As culpabilizações de Órgãos Sociais passados revelam sempre a fraqueza de quem tem receio e dúvidas sobre as suas próprias capacidades de liderança e de gestão. Corrigir o que ficou mal feito (ninguém acerta sempre), terminar os projetos e as decisões válidas, manter tudo aquilo que se fez bem, estar atento, modernizar e atualizar o que os tempos modernos exigem, manter o espírito de união e a rigorosa democraticidade da nossa vida interna, os nossos mais sagrados e antigos valores, comunicar bem e com a frequência exigível com os sócios e com o exterior e exercer a missão, porque de uma missão se trata, senhores dirigentes, com competência, inteligência, bom senso e muita humildade. Foi assim na nossa história e noutros tempos. Temos de pugnar para que isso volte a ser a nossa prática para voltarmos a ser o bom exemplo que já fomos, para podemos dizer “Valeu a Pena”, como o título de um fado do nosso querido e saudoso Moniz Pereira, e também para continuarmos a sentir, com muito orgulho, o eterno lema da Rua do Passadiço, Hoje e Sempre Sporting!

Uma nota final da memória de muitos sportinguistas: Ferenc Mészaros, nascido na Hungria, falecido no passado dia 9, com 72 anos de idade. Foi um dos melhores guarda-redes do Sporting e que vi jogar muitas, muitas vezes. Descansa em Paz, Mészaros. O Sporting não te pode esquecer, não te deve esquecer, não te vai esquecer.

Saudações Leoninas

João Trindade – Sócio do SCP nº 232

Janeiro, 2023

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