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E O FUTURO, DR FREDERICO VARANDAS?
Ao assumir que não consegue pagar dívidas e ter uma equipa, o Presidente assume tacitamente a completa falência do seu modelo de gestão desportiva e talvez tenha dito a primeira verdade em muito tempo
Imagem de destaque13 Fev 2020, 08:00

Foi uma semana pródiga em intervenções do Presidente do Sporting Clube de Portugal. O que poderia ser positivo, no sentido de trazer algum tipo de esclarecimento sobre o momento actual, acabou por se revelar um exercício de justificação de responsabilidade alheia e um factor de preocupação para o sportinguista mais atento.

O discurso do Presidente toca em diversos assuntos, com um foco orientado para o passado e para o ajuste de contas com todos os que se lhe opõem ou criticam. Sobre soluções para ultrapassar a realidade presente, nem uma palavra que possa servir de âncora para as hostes sportinguistas.

O teor da mensagem do Presidente, hoje, é bastante diferente do que já lhe ouvimos, quando lhe era bastante barato fazer promessas e verbalizar chavões de afirmação. No fim das contas, é comum ver Frederico Varandas ter entradas de leão e saídas de sendeiro.

Em Junho de 2019, numa entrevista concedida à Sporting TV, ouviu-se-lhe dizer que a estrutura do futebol do Sporting se havia preparado para o mercado. E, reforçou, que preparar-se para o mercado traduzia-se em ter várias alternativas de actuação, previamente preparadas. Serviu-se, até, do nome de Bruno Fernandes, de Acuña e de Battaglia para enfatizar que a preparação para o mercado não passava, por si só, pela transferência destes três atletas. Prosseguindo, afirmou que existia um “plano A” para a permanência de Bruno Fernandes e que existia um “plano B” para a saída do mesmo atleta, que passaria por atacar o mercado. Efectivamente, o Sporting não pode ter uma atitude unidimensional, perante o mercado, sendo necessário que se observe um critério equilibrado entre as vendas e a manutenção de condições de competitividade.

Num cenário de venda do seu activo mais valioso, é de elementar bom senso que a direcção tenha que “atacar” o mercado para manter um certo padrão qualitativo na equipa de futebol, sendo essa intervenção facilitada pela disponibilidade do dinheiro proveniente de tal transferência. Portanto, não saindo o atleta, o Sporting mantinha um activo desportivo de valia e abstinha-se de actuar no mercado (até por escassez de recursos financeiros); transferindo o atleta, o Sporting via-se obrigado a compensar tal saída, tendo alguma solvência financeira adicional. Até aqui, nada tenho a apontar a Frederico Varandas sobre o tema da venda de Bruno Fernandes, uma vez que tal princípio, de só ir ao mercado com dinheiro na mão, me parece de elementar bom senso.

Porém, nesta última entrevista, Frederico Varandas diz, de forma muito perceptível, que cometeu um erro, ao não transferir Bruno Fernandes. Lembro que o valor da oferta, do passado Verão e que o Presidente reconheceu ter existido, era inferior ao negócio agora concluído.

Se, vender Bruno Fernandes foi um erro ou não, sempre tal conceito recairá numa interpretação subjectiva do tema. No entanto, o que me deixou preocupado foi a justificação para a assumpção de tal circunstância como sendo um erro.

Se em Junho era fácil decifrar e concordar com o que o Presidente declarou, a propósito de ir ao mercado com dinheiro disponível, neste mês de Fevereiro, a justificação dada inverte todo o sentido do que foi a sua primeira mensagem. O erro e o pavor de não ter vendido Bruno Fernandes, deviam-se ao facto de já ter contratado três jogadores (cujo custo ronda muito proximamente os 20 milhões de euros) sem ter dinheiro, o que o obrigava a vender o seu activo mais valioso e transaccionável, com toda a fragilidade negocial decorrente dessa circunstância. Na verdade, usando a mesma expressão do Dr. Frederico Varandas, se ele andou a negociar de “calças na mão”, neste caso, foi ele que se colocou nessa posição.

Outro dos temas focados pelo Presidente foi o tema financeiro, como factor de limitação à competitividade da equipa. Se o argumento pode funcionar, quando nos equiparamos a Porto e Benfica, confesso-me incapaz de compreender como pode tal justificação funcionar quando o adversário é qualquer um dos outros. Por muito difícil que seja a vida do Sporting, o nosso orçamento é muitíssimo superior a qualquer outro clube da I Liga, excluindo os dois rivais. E ser melhor que os demais competidores da I Liga, é o mínimo exigível para o nível de encargos que o nosso futebol comporta. Ao assumir que não consegue pagar dívidas e ter uma equipa competitiva (mesmo que gastando três vezes mais que o SC Braga, por exemplo), o Presidente assume tacitamente a completa falência do seu modelo de gestão desportiva e talvez tenha dito a primeira verdade em muito tempo.

Contra a opinião do Presidente, que referiu não ter atletas de formação com capacidade para fazer parte do plantel, no início desta temporada, o Sporting poderia ter contado com um número considerável de elementos da nossa formação, que teriam ajudado na necessidade de baixar drasticamente a folha salarial (algo em que a actual administração tem falhado largamente), sem comprometer os objectivos desportivos mínimos da época. Para além de Max, Jovane e de Miguel Luís, o Sporting também poderia ter integrado Mama Baldé (que foi cedido no negócio Rosier), Francisco Geraldes (que agora retorna), Matheus Pereira, Domingos Duarte (esqueçamos a frágil justificação para sua venda) ou Daniel Bragança. Podemos, ainda, acrescentar o nome de Gelson Dala que, não sendo da formação, é um elemento de alguma valia que teria ajudado, por certo, a fazer face à escassez de atacantes no plantel.

Esta administração regista vendas astronómicas e regista compras no valor de 50 milhões de euros (que não é pouco), com depreciação evidente do potencial desportivo da equipa, sem que haja a correspondente redução de encargos tão necessária. Sobre este tema, há que dizer que Frederico Varandas não olhou para dentro, negligenciando os recursos internos disponíveis, antes de ir ao mercado, abdicando, de forma voluntária, de uma importante ferramenta para equilibrar a componente financeira e a componente de competitividade desportiva, que é – como sempre foi, em momentos de fragilidade financeira – a formação. Mas se esta administração não foi capaz de cortar nos encargos, como tinha que ser, o (mau) exemplo foi dado pela equipa nomeada pela Comissão de Gestão, que conseguiu a proeza de incrementar os custos com o futebol profissional, mesmo com as saídas de atletas e equipa técnica que, por si só, representavam um custo superior a 10 milhões de euros, em massa salarial.

Na verdade, há um padrão de contradições sobre aspectos decisivos para a vida da Instituição, que Frederico Varandas parece alimentar em função de uma percepção muito própria de conveniência, sem se aperceber de que as pessoas percebem cada uma das suas contradições. Convenhamos que, alguém que defende uma coisa e o seu contrário, não pode inspirar confiança no futuro.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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