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ENTÃO, HÁ ALGUMA NOVIDADE?
O FC Porto talvez tenha sentido que estava na altura de reerguer a sua teia de silêncios e cumplicidades. Mas já não estamos no século passado.
Imagem de destaque30 Abr 2021, 10:00

As imagens mostram claramente: Pinto da Costa aproxima-se com cara de poucos amigos de um repórter de imagem, coloca-se frente a ele. Ao lado e também muito próximo do jornalista, um encorpado guarda-costas, que não sei quem é (o mesmo que, depois, recebe das mãos de Pedro Pinho “as chaves do carro, para ir buscar framboesas”). Um pouco atrás, visível nas imagens, o tal atá agora obscuro Pedro Pinho. Pinto da Costa atira a cínica pergunta ao repórter de imagem: “Então, há alguma novidade?”

O repórter de imagem retira a câmara do tripé, recua dois passos, parece intimidado. O olhar de Pinto da Costa dirige-se para outro ponto, a câmara do repórter que foi abordado por Pinto da Costa também, e vemos o tal Pedro Pinho a agarrar no tripé e na câmara da TVI que estava a filmar toda esta cena, e a tentar atirá-la bancada abaixo, perante a passividade de Pinto da Costa.

O único que reage rapidamente é Vítor Baia, que acorre ao repórter de imagem da TVI, enquanto este chama a GNR e pede proteção.

Nas filmagens da câmara da própria TVI, vemos e ouvimos as ameaças do tal Pedro Pinho e depois, num solavanco que parece denunciar um pontapé ou um safanão, a câmara aponta para outro ângulo e ficamos só com o som do repórter de imagem a chamar pelo socorro do senhor guarda.

E este “senhor Guarda” remeteu-me logo, de imediato, para o “guarda Abel”. Os mais novos podem não se lembrar. No final dos anos 80 e durante os anos 90, o “guarda Abel”, um antigo PSP, liderava uma guarda pretoriana do FC Porto, que espalhava o terror nos estádios de futebol e estava encarregue de intimidar, ameaçar e agredir adversários, jornalistas e árbitros, nos jogos em que o Porto participava, tanto nas Antas, como fora.

Até presidentes de clubes foram ameaçados de morte, jornalistas tiveram de procurar proteção dentro de ambulâncias, tal era o terror espalhado por este grupo, que andava à solta, tinha carta branca e nunca foi metido na ordem.

Foi justamente nesta época, também polvilhada com muitos “quinhentinhos”, “fruta” e “café com leite”, que o Porto alcançou e consolidou um longo período de hegemonia no futebol português.

Por isso, a pergunta que me ocorre quando vejo e revejo as imagens da agressão em Moreira de Cónegos, quando vejo a desfaçatez, cinismo e hipocrisia de Pinto da Costa no Porto Canal, quando todos vemos os reiterados comportamentos agressivos e insultuosos de Sérgio Conceição em diversos jogos, quando se confirma que nada mudou na cabeça dos que dirigem o FC Porto, que ainda pensam que vivemos no século passado e que são toleráveis a violência, a intimidação, a falta de desportivismo, o mau perder, a sonsice, a tentativa de condicionar, os mergulhos para a piscina, o choradinho permanente, a pergunta que me ocorre, dizia, é só uma: “então, há alguma novidade?”

Todos ouvimos o conteúdo das escutas, que ainda estão na internet para quem as quiser ouvir. Todos sabemos que só não houve gente presa porque essas escutas, infelizmente, não foram previamente autorizadas por um juiz, pelo que não foram aceites como prova em tribunal.

Todos sabemos que isso causou alguma fragilidade no FC Porto, que teve algum pudor, durante algum tempo, em continuar a utilizar os métodos que tão bons resultados geraram nos anos 80 e 90 do século passado.

Isso foi aproveitado por outro clube, que assumiu o controlo do “sistema” em seu benefício. Mas, por sua vez, também esse clube foi exposto através de emails, com “padres”, “toupeiras”, “missas”, “vouchers”, etc.

O FC Porto talvez tenha sentido que estava na altura de reerguer a sua teia de silêncios e cumplicidades. Mas já não estamos no século passado.

“Então, há alguma novidade?”. Não, não há, senhor Pinto da Costa. É tudo um filme já visto. Mas, em pleno século XXI, é um filme que envelheceu mal, com “efeitos especiais” toscos, que já não surpreendem nem enganam ninguém. É apenas patético. Não deixa de ser grave por ser patético. Mas é sobretudo isso. Patético.

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