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GLÓRIA OU PERDIÇÃO
É uma jogada de altíssimo risco para o Conselho Directivo do Sporting. Aplica-se aqui a história do lobo: tantas vezes se falou num all-in da direcção leonina, que definitivamente aconteceu.
Imagem de destaque07 Mar 2020, 08:00

(Para a Amélia)

O aparecimento de uma nova vida é motivo de esperança renovada. Sempre. O nascimento da minha filha Amélia, faz hoje precisamente uma semana – a 29 de Fevereiro –, naturalmente já inscrita como sócia do Sporting Clube de Portugal, encaixa na perfeição nesta abertura. Com ela, percebi que já ultrapassámos os 187 mil associados!

As minhas outras duas filhas, Leonor e Maria, tiveram o mesmo privilégio, mas só a primeira (a mais velha) incorporou o espírito leonino, enquanto a mais nova preferiu outras cores, azuis da cidade onde vive e sempre viveu. Menos mal.

A Amélia, que tem Alvalade como freguesia de nascença e residência, irá ter o seu percurso desportivo (tal como o pai e mãe tiveram no seu tempo e no seu clube), ligada ao Sporting, já que terá mais de meia centena de modalidades à escolha para poder representar o seu (espero) Clube do coração.

Claro que corro o risco de a pequena ter mais queda para o clube da mãe: nunca se sabe como funcionam estas coisas do coração. Mas a progenitora, na sua sapiência, nunca fez questão que a menina seguisse os seus passos desportivos. Até porque percebeu cedo que uma vez conquistado o cartão de sócio, o pai perdia acesso a outras decisões que requerem negociação. Creche? Quem decide é a mãe. Baptizado? Sai mais uma decisão para a mamã. Catequese? Idem aspas.

Estou ciente que, além do mais, não será certo que a Amélia escolha as cores certas. Até porque o coração da mãe, que só tem uma cor – azul e branco – pode sempre interferir nesta receita. Mas creio que a minha paixão contagiará a nossa filha. Não será difícil passar a paixão pelo leão rampante. Gosto de história – toda a gente adora uma boa história e os jornalistas são, ou deveriam ser, contadores de histórias por excelência – e os 114 anos de existência, carregados de glória desportiva com marcos absolutamente assinaláveis, farão o resto.

A contratação de Rúben Amorim para o cargo de treinador principal de futebol do Sporting é, igualmente, o aparecimento de uma nova vida carregada de esperança renovada. O preço pago pode parecer exorbitante, mas só tempo ficará encarregue de o demonstrar ou o seu contrário. Os 10 milhões de cláusula de recisão podem revelar-se uma pechincha (esqueçam a palhaçada do IVA porque nunca em Portugal se falou nesse imposto nas movimentações no futebol, mas claro que o Sporting tinha de ser o primeiro a abrir caminho até neste ridículo caso particular)!

É preciso não esquecer que um dos mais cotados treinadores portugueses da actualidade, num único jogo em que o empate servia as intenções leoninas, acabou por fazer o Clube perder 20 milhões – no acesso à Liga dos Campeões –, o que acabou por espoletar a fúria dos adeptos e os subsquentes episódios que terminaram onde hoje estamos.

Na verdade, do ponto de vista estratégico, a contratação de Rúben Amorim é genial. Enfraqueceu o clube ao qual foi resgatado e quer-se acreditar que o bom trabalho por ele desenvolvido nos somente 13 jogos que lá orientou (10 vitórias, duas derrotas e um empate) possa ter continuidade em Alvalade.

O próprio Rúben Amorim não podia ter colocado melhor o acento tónico na conferência de imprensa da sua apresentação. “Falam do risco e perguntam: ‘E se corre mal?’, mas eu pergunto ‘E se corre bem?’ Entre muitos outros deliciosos pormenores – respondeu a tudo e de forma simpática, enfática e bem simplificada –, só com este cativou-me. E não dou para o peditório de ser sócio do eterno rival, pois o mesmo bem cotado treinador atrás referido também era sócio do Sporting mas isso não o coibiu de fazer a carreira que fez no rival. E bem. O profissionalismo assim o obriga e é, também, por isso que chegou onde chegou.

Rúben Amorim está absolutamente consciente da espinhosa missão que terá pela frente e com as exigências imediatas que lhe serão cobradas. Não apenas pelos Sócios mas, acima de tudo, pelo presidente que o contratou. Em relação a este assunto, já lá iremos. Uma palavra, ainda, para as declarações infelizes do presidente do clube que teve de libertar o Rúben. “Braga foi surpreendido com movimento de um clube concorrente”, disse. Relembro que a última vez que um presidente de um clube comparou o seu emblema ao do Sporting, tentando criar um foco desestabilizador na equipa leonina, foi Rui Alves, então líder do Nacional, e veja-se onde estão ambos hoje. Depois, o ónus da efectivação do negócio não esteve no Sporting, que apenas se limitou a apresentar as condições impostas pela sua entidade patronal, mas sim no seu profissional. Mesmo “batendo a cláusula”, em caso de recusa de Rúben Amorim em trocar o seu anterior clube pelo Sporting, hoje tudo estaria como dantes. Quantos sheiks já ofereceram mundos e fundos por Messi, mas o astro argentino continua em Barcelona? Portanto, o Sporting, e muito bem, fez a sua proposta, que foi aceite. Não vejo onde está a falta de ética neste caso, apenas negócio. Acredito que seja difícil ver-se passado para trás nestas circunstâncias e com estes protagonistas, mas pode ficar a chorar agarrado a 10 milhões de euros, que é coisa que poucos podem fazer nos dias de hoje. Ainda por cima, por um treinador.

É, no entanto, uma jogada de altíssimo risco para o Conselho Directivo do Sporting. Aplica-se aqui a história do lobo: tantas vezes se falou num all-in da direcção leonina, que definitivamente aconteceu. Que tenham a consciência que, em caso de falhanço, este é o fim de linha para tantas desventuras até aqui percorridas. Rúben Amorim pode ser a glória ou a perdição de Frederico Varandas.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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