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ONDE ATÉ CHURCHILL É CHAMADO A DAR UMA AJUDA AO SPORTING
Causa apreensão que não haja nenhuma estratégia visível para chamar os Sportinguistas de todas as sensibilidades.
24 Jan 2020, 08:00

Winston Churchill terá dito um dia: “The opposition occupies the benches in front of you, but the enemy sits behind you”. Em algumas das suas versões ou interpretações esta frase distingue entre inimigos (que estão entre nós, na nossa família) e adversários (que estão noutras organizações). É uma boa frase, com raízes bíblicas, intrigante, com uma pitada de amargura à mistura.

Os inimigos passariam bem sem nós. Detestam-nos, querem a nossa destruição. Por preconceitos étnicos, religiosos, culturais, etc., desejariam que desaparecêssemos. Adversários, são aqueles que procuram, em alguma situação da vida, fazer melhor que nós, disputar-nos as melhores posições, ganhar, ter mais sucesso. Com a sua argúcia, talvez Churchill admitisse que a sua frase não tem aplicação universal. No desporto, por exemplo, não há inimigos, só há adversários. O Benfica e o Porto não são nossos inimigos, são nossos adversários. Sem eles – e sem nós – o desporto em Portugal não seria o mesmo. Se algum deles – ou o Sporting – desaparecesse, a vida teria menos sal.

Esta verdade inequívoca de que no desporto não há inimigos, apenas adversários, parece ser ignorada por alguns. Por vezes, é conveniente identificar artificialmente inimigos.

A tese da identificação e combate de um inimigo principal como fator de mobilização e coesão é tão antiga como a História. E, se esse inimigo principal estiver dentro do nosso próprio grupo, comunidade ou organização, a sua eliminação, ostracização, demonização, é um instrumento essencial de manutenção do poder.
No Sporting parece que esta táctica tem adeptos nos mais elevados níveis da liderança do Clube. Qualquer sinal de divergência, de pensamento diverso, de dúvida, de inquietação sobre rumos e resultados, é imediatamente rotulada como afronta inaceitável, perpetrada por inimigos internos, cujo destino só pode ser o ostracismo.

Evitarei dizer que essa é uma táctica de fracos, mas é certamente uma táctica fraca. A curto prazo pode criar uma ilusão de coesão no grupo dirigente, gerada em torno da ideia de quebra do cerco provocado por “forças” hostis. A médio/longo prazo enfraquece inexoravelmente todos e, em última análise, pode conduzir a rupturas que ameaçam a subsistência da própria organização. Não faltam exemplos históricos a comprová-lo.
O Sporting está a necessitar urgentemente de várias coisas. Falaremos delas nesta coluna. Hoje sublinho aquelas que, na situação atual, são mais vitais: humildade e liderança. De preferência, adequadamente doseadas e equilibradas.

Temos de admitir que anos e anos de acção nossa e de terceiros nos conduziram a uma situação em que não há soluções milagrosas, nem opções únicas e inequívocas. As lideranças do Sporting têm de ter humildade para reconhecer que o Sporting tem fragilidades e insuficiências que só se consegue começar a minorar (para daqui a algum tempo, eventualmente bastante, superarmos), se houver uma mobilização geral dos Sportinguistas. Essa mobilização tem de ser empreendida por quem tem a responsabilidade social de dirigir o Clube. Causa apreensão que não haja nenhuma estratégia visível para chamar os Sportinguistas de todas as sensibilidades – a começar pelos Sportinguistas cujas listas foram derrotadas nas últimas eleições para os órgãos sociais do Clube – para deles obter os contributos que muitos têm e querem dar.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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