summary_large_image
PLANO INCLINADO
Uma questão de princípio: as destituições são um mau caminho. E ter o permanente cutelo do precedente de destituição sobre a cabeça é indesejável.
14 Fev 2020, 10:00

Dói-me a alma por dizer isto, mas no Mundo que corre uma instituição que é gerida para enfrentar em permanente sobressalto o imediato, para resistir ao cerco, inclusive dos seus próprios fantasmas, para simplesmente ganhar tempo, sem uma visão clara do futuro, dos objetivos, da estratégia e das forças e alianças para os alcançar, é uma instituição condenada à mediocridade e ao dramático definhamento. É o que me ocorre quando leio e assisto às últimas entrevistas e intervenções do Presidente do Conselho Diretivo do Sporting Clube de Portugal.

Em boa verdade, a situação é ainda mais séria do que a falta de visão e de estratégia de futuro para fazer do Sporting outra vez poderoso. Porque aquilo que percebemos é que há já falta de espaço de manobra para resolver problemas imediatos de enorme delicadeza.

Vejamos por exemplo a questão do treinador principal da equipa sénior masculina do Sporting.

Sejamos claros e justos. Jorge Fernandes, mais conhecido por Jorge Silas, pode vir a ser um dos treinadores de topo do futebol português. Já mostrou qualidades que, bem trabalhadas, o podem alcandorar aí. A questão que se coloca (sobretudo a ele, é claro…) é se está a conduzir bem a carreira. Queimar etapas normalmente não é a melhor opção em profissões onde a experiência e o peso são um fator decisivo para se impor a dirigentes, jogadores, árbitros e adeptos. Certamente que Jorge Silas não é propriamente um novato no Mundo do futebol. Tem poucos anos de treinador porque arrumou as chuteiras de futebolista há pouco tempo, depois de ter andado pelos quatro cantos do Mundo. O facto de estar bem acima dos 40 anos certamente o leva a ter pressa. Mas ter ido para o Sporting, embora mostre arrojo, pode contribuir para que essa carreira de treinador e o seu eventual acesso aos lugares de topo se atrase alguns anos e que o seu trajeto profissional seja, afinal, mais lento do que o que desejaria.

Num clube desamparado, sem recursos, sem liderança e sem ambição, o destino anunciado de Jorge Silas é a saída já no final da época, talvez até antes se o padrão de comportamento da Direção do Sporting se mantiver.

E depois, o que virá?

O que virá, a manterem-se as atuais circunstâncias diretivas, será, infelizmente, pior.

A sequência de treinadores dos últimos tempos – José Peseiro, Tiago Fernandes, Marcel Keiser, Leonel Pontes, Jorge Silas – é uma sequência de plano inclinado. Será muito difícil que a atual Direção consiga inverter esta tendência e logre convencer um treinador com experiência e estatuto nacional e internacional (por outras palavras, com peso no Mundo do futebol), que constitua ele próprio um valor acrescentado que não tenha de provar nada no Sporting, a vir substituir Jorge Silas. Se o Conselho Diretivo atual o conseguir, será à custa de um contrato draconiano, com sérios riscos de se tornar ruinoso ou danoso para o Sporting em caso de desvinculações e rescisões sem mútuo acordo.

Resolve-se isto com um ato destitutivo?

Não conheço os elementos que foram analisados pela Mesa da Assembleia Geral, não posso avaliar os seus argumentos e fundamentações para recusar a convocação da Assembleia Geral requerida. Independentemente disso, uma questão de princípio: as destituições são um mau caminho. Uma próxima Direção do Sporting, que, mais tarde ou mais cedo, vai ter de ser escolhida, irá encontrar uma situação muito mais dramática do que a já muito deteriorada situação dos últimos anos. Não vai ser fácil para ninguém gerir o Sporting, por mais experiência, competência, capacidade de mobilização e de união do Sporting que venha a mostrar.

Por tudo isso, ter o permanente cutelo do precedente de destituição sobre a cabeça é indesejável.

  Comentários