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PLATA QUE PODE SER OURO
Depois de ontem e no caso do Sporting, está demonstrado que Plata da casa pode ser transformada em ouro. Às vezes, basta acreditar no nosso potencial.
24 Fev 2020, 08:00

(O Sporting venceu, em casa, numa tarde feliz, não apenas pelo jogo mas, principalmente, pelo ambiente vivido no estádio. A única nota negativa que me permito deixar é a da manifesta incapacidade de Severo cumprir, pelo menos, parte das suas funções. Já o quarto árbitro falava durante minutos com o director para o futebol e um jogador, ambos do Boavista, sabe-se lá do quê em pleno jogo, quando finalmente Beto decidiu sair do seu posto e fazer o que lhe compete. A atitude deste foi inversamente proporcional à diligência demonstrada pela equipa do Boavista, sempre disposta a comunicar com os árbitros, como, aliás, sucedeu na saída para intervalo. Não obstante, o resultado foi, na minha opinião, melhor do que a exibição, principalmente na segunda parte mas não pode deixar de se realçar que as claques cumpriram o que prometeram. Honra lhes seja feita. Em vez de cânticos contra a direcção que, independentemente da razão que possa assistir, não devem ocorrer no meio de jogos, os GOA optaram – e bem – por apoiar a equipa. Embora em número mais reduzido do que o habitual, o que é certo é que os que estiveram fizeram o que é suposto um adepto fazer e aquilo que falta no estádio. Dito isto, o que me parece inquestionável é que, uma vez respeitados padrões de comportamento mínimos e não se tendo um discurso de ódio que nos fragiliza perante terceiros, há lugar para todos.)

Confessando-se Sportinguista, Ribeiro Cristóvão, segundo me contaram, terá dito há uns tempos, num programa, que “o Sporting tem de se livrar desses jogadores medíocres, como Plata”. E embora não pareça, o assunto do parágrafo anterior está relacionado com o que direi a propósito deste inusitado desabafo.

Tenho fundadas dúvidas sobre a pertinência deste tipo de comentários, sabendo-se que o visado é jovem, ainda não teve ampla capacidade de mostrar o que vale e não se desconhecendo também o ambiente de instabilidade vivido no Clube. Os insultos directos a jogadores, tanto quanto se tem visto, não têm dado grandes resultados no Sporting, o que não significa que, em função do respectivo rendimento e eventual (in)disciplina não se tenham que tomar medidas, as quais, tanto quanto possível, se devem manter entre portas. Não é o que se tem passado e o fenómeno não se restringe às ditas claques.

Na sua essência, o que distingue o nosso Clube dos demais é que somos os primeiros, voluntária ou involuntariamente, a depreciar os nossos activos. Enquanto os nossos rivais surgem unidos, cada um sob o espectro de uma direcção com autoridade e fazendo o que têm a fazer sem grandes alardes, nós andamos entretidos a derreter-nos uns aos outros, jogadores incluídos, sem lograrmos perceber que a marca é o nosso maior património, aquele que permanecerá quando as quezílias cessarem.

Assim, uma das coisas essenciais a mudar são as mentalidades, designadamente um certo tipo de discurso que tudo corrói e que não visa (nem, aliás, o pretende…) acrescentar nada. A política da terra queimada pode ter servido para os russos derrotarem os franceses e alemães, mas não tem sido apta a gerar qualquer benefício para o Clube.

Depois, de ontem e no caso do Sporting, está demonstrado que Plata da casa pode ser transformada em ouro. Às vezes, basta acreditar no nosso potencial, não nos hostilizarmos uns aos outros e deixar que o jogo flua, mesmo quando as decisões do árbitro nem sempre merecem a nossa concordância. Foi o que começou a acontecer ontem, quer com Plata a jogar a titular, quer com outros jogadores da nossa formação a pisarem o relvado.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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