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RAIO-X DO NOVO ORÇAMENTO DO SPORTING CLUBE DE PORTUGAL
Analiso aqui a proposta da Direção para a nova época, as suas opções, bem como a evolução das receitas e dos custos ao longo dos últimos anos.
23 Jun 2020, 09:00

Inicio este texto com críticas. A obrigatoriedade de quem quiser conhecer o orçamento do Sporting Clube de Portugal para 2020/2021 ter de se deslocar ao Pavilhão João Rocha é inaceitável em tempos de COVID-19 e quando existe uma plataforma online onde se pode disponibilizar a cada Sócio os documentos é lamentável que tal ocorra.

Escrito isto, fui ao Pavilhão João Rocha (não deixando de ter ficado feliz de lá estar e recordar-me da sua inauguração há três anos) recolher a informação que necessitava para o presente artigo. Curiosamente (ou talvez não), contrariamente à informação veiculada através de um comunicado no dia 18 [1] e à informação que está no site do Sporting sobre os horários de atendimento [2], o serviço de atendimento ao Sócio funciona das 12h às 20h e o local é na Loja Verde junto ao Multidesportivo. Enfim. Nada que duas idas a Alvalade não resolvam. Mas é sintomático.

Deixo aqui algumas notas fundamentais sobre o orçamento.

O resultado líquido orçamentado atinge os 36 mil euros, em linha com anteriores orçamentos que apresentam valores perto de zero. Importa perceber que 1) não se pode apresentar um orçamento negativo e 2) que qualquer desvio que torne o resultado negativo pode originar um processo de destituição dos órgãos sociais. Assim, aqui, nada de novo.

As notas principais constam de diversas linhas do orçamento e detalho aqui algumas:

  1. As receitas totais orçamentadas são de 21,5 milhões de euros que representam menos 2,4 milhões de euros face ao orçamentado no ano anterior, menos 4,0 milhões de euros face a 2018/19 (sendo que se retirarmos desta conta o efeito positivo dos 1,7 milhões do mecanismo de solidariedade do Cristiano Ronaldo a diferença passa para 2,3 milhões de euros);
  2. Da quebra de receitas face ao ano em curso, de 2019/20, a grande responsabilidade vai para a rubrica de publicidade e patrocínios (menos 972 mil de euros), quotizações (menos 900 mil euros), inscrições nas modalidades (menos 532 mil euros), bilheteira, incluindo gameboxes e camarotes e business seats (menos 372 mil euros);
  3. A quebra nos valores principalmente relacionados com publicidade e patrocínios e quotizações demonstram o falhanço nas estimativas iniciais e o impacto das ações negativas contra Sócios, com reflexos, necessariamente nos restantes parceiros; e demonstram também uma inversão da narrativa de sucesso comercial que se tem sustentado, principalmente na Sporting SAD, em contratos assinados em anos anteriores à atual Direção ter tomado posse;
  4. Importa recordar que, em 2017/18 as receitas com quotizações atingiram os 8,9 milhões de euros, estando orçamentados para 2020/21 menos 815 milhares de euros, ou seja, um valor global de 8,1 milhões de euros;
  5. A quebra de inscrição nas modalidades e bilheteira pode assumir-se como sendo resultante dos impactos da COVID-19;
  6. Da queda das receitas surge, concomitantemente, uma quebra nos gastos, face ao orçamento da época que agora termina, na ordem geral dos 2,3 milhões de euros, sustentada, fundamentalmente, na quebra dos honorários num valor de cerca de 937 milhares de euros, respeitantes, na sua grande maioria, aos gastos com atletas das modalidades, havendo uma redução geral de todas as restantes rubricas, relacionadas com a atividade que se espera mais reduzida; importa notar que de 2017/18 para 2018/19, os honorários com atletas subiram cerca de 3,1 milhões de euros; podíamos afirmar que é cada uma das taças europeias ganhas custou 1,5 milhões de euros (tendo o Sporting falhado a revalidação de campeonatos ganhos no ano anterior);
  7. Curiosamente (ou talvez não) uma das poucas linhas que vê o orçamento subir é o dos gastos com o pessoal; na sequência de diversas afirmações dos dirigentes do Sporting, tem havido um reforço do quadro de pessoal; mas a minha pergunta é: para quê? Este reforço deveria trazer consigo mais receitas; lanço diversas ideias: utilização do Pavilhão João Rocha para eventos e concertos, reforço das parcerias que ajudem a identificar aos Sócios do Sporting quais os postos de abastecimento de combustível que aportam valores percentuais ao Clube (e não, não são postos da Repsol), rentabilização do terreno da Av. Padre Cruz, que já tinha sido aprovado em Assembleia Geral passar para o Clube, capitalização dos valores relacionados com a exploração da marca Sporting (que pertence ao Clube), aumento do número de Sócios com uma estratégia forte nos Núcleos e nos Grupos Organizados de Adeptos e potenciação da publicidade na Sporting TV. Se assim não for, porque se assiste ao aumento dos já referidos gastos com o pessoal, que estão orçamentados em 1,4 milhões de euros, evoluindo do orçamento da época que agora finda no valor de 1,3 milhões, tendo sido de 1,2 milhões de euros em 2018/19 e de 1,0 milhão de euros em 2017/18? Ou seja, desde a época de 2017/18, os gastos com o pessoal aumentam 40%.

A capacidade competitiva pode, aparentemente, ficar reduzida. No entanto, da análise que faço, por exemplo, do orçamento do nosso adversário da Segunda Circular, percebe-se que também eles vão reduzir a massa salarial e os gastos com honorários afetos às modalidades. Dos dados que analisei, verifico que estes gastos passam no orçamento de 2019/20 de 12,1 milhões de euros, para 8,6 milhões, ou seja, apresentam uma redução de cerca de 3,5 milhões de euros.

Assim, apesar das reduções no orçamento do Sporting Clube de Portugal, não há desculpas para não tentarmos e conseguirmos ser campeões em todas as competições em que entrarmos. No entanto, importa perceber se há algumas modalidades que estão a ser alvo de desinvestimento excessivo face a outras. E aqui a minha preocupação prende-se, não só com o gosto de títulos que se podem e querem obter, mas também com o trabalho fantástico que o Sporting sempre fez com jovens, alguns de meios muito desfavorecidos. Assim, por que não envolver mais os Sócios e adeptos e pedir a sua colaboração, apadrinhando muitos desses jovens, por todo o Portugal? E já agora, por que não envolver a Fundação Sporting nesse processo, já que como IPSS tem, claramente essas competências.

Como sempre digo, números são números, e têm de refletir a realidade da atividade operacional. E muito da mesma, no caso do Sporting Clube de Portugal, resulta das ações de Sócios, adeptos e parceiros. Assim, compete a todos aqueles de nós que, podendo, reforcem o apoio, cumprindo com o pagamento de quotas e indo assistir, logo que o Pavilhão abra ao público, aos jogos, se possível com a aquisição de bilhetes de época. Por muito que nos incomodem muitas atitudes de quem gere o Sporting, os nossos atletas merecem. Porque defendem o nosso símbolo e as nossas cores. Os dados estão lançados.

[1] https://www.sporting.pt/pt/noticias/clube/comunicados/2020-06-18/comunicado-sporting-clube-de-portugal

[2] https://www.sporting.pt/pt/contactos

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