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REFORMAS URGENTES: LIGA DOS CAMPEÕES, QUADROS COMPETITIVOS E DIREITOS TELEVISIVOS
Pedro Proença foi sempre um líder esmaecido, assolado pelas diabruras do SL Benfica e dos seus parceiros e figura menor no seio da Federação Portuguesa de Futebol.
13 Abr 2021, 13:59

A UEFA, organismo que superintende o futebol europeu, irá anunciar no final deste mês de Abril, o novo formato da Liga dos Campeões, que entrará em vigor na época de 2024/2025, ou seja, daqui a quatro temporadas.

Em virtude de ocupar, neste momento, o sexto lugar da classificação por países, Portugal tem, para já, a possibilidade de colocar duas equipas directamente na fase de grupos da Liga dos Campeões e uma terceira equipa que se poderá apurar através de um play-off.

Para que possamos subir mais um degrau na classificação europeia, o que considero concretizável, competirá aos clubes portugueses, nomeadamente e sobretudo àqueles que são actualmente, pela sua dimensão social e respectivas infraestruturas, os cinco principais – Sporting CP, FC Porto, SL Benfica, SC Braga e Vitória Sport Clube – somarem, nos próximos anos, o máximo de pontos nas provas europeias em que estão inseridos e com isso ultrapassarmos o país que vai à nossa frente, a França.

Caso esse objectivo seja alcançado, possibilitará a que mais uma equipa portuguesa, a sexta, possa disputar a fase de qualificação da Liga Europa. Seria fantástico para a visibilidade e projecção do futebol português podermos continuar a almejar ter seis equipas nas competições europeias de clubes. Três equipas a entrar directamente na Liga dos Campeões, duas equipas na qualificação para a Liga Europa e uma na Conference League, a terceira prova da UEFA que se irá estrear já na próxima temporada 2021/2022.

Redução do número de equipas na Liga NOS

Obviamente que, para que isto seja possível, tem, entre outras medidas, de se rever os quadros competitivos nas ligas profissionais em Portugal. O presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, defendeu, provavelmente pela experiência, conhecimento e cargos que ocupa, a redução do número de clubes da Liga NOS, de 18 para 16 clubes. É uma proposta que respeito e que se compreende, mas no meu entender conservadora, porque podemos e devemos ir ainda mais além…

A singularidade de termos três grandes instituições que historicamente se consolidaram e alavancam o futebol português e que entre elas retêm grande parte das receitas televisivas, bilheteira, merchandising e patrocínios também tem que ser repensada.

Defendo que 14 clubes é o ideal para o principal campeonato português tendo em conta a dimensão socio-económica e demográfica do nosso País. Uma primeira divisão, de elite, com clubes fortes, sustentáveis, competitivos, a nível nacional e com projecção internacional é o que devemos ambicionar. Uma prova mais competitiva, onde se verifique uma melhor e mais justa repartição de receitas, só será possível com menos equipas, mas em que estas disponham de mais recursos.

Acresce que é preciso criar as melhores condições para que as equipas que representam Portugal nas competições europeias possam ter bons resultados desportivos e consequentemente financeiros. Parece-me um paradigma bom para quase todos.

Ora, caso se confirme que a Liga dos Campeões terá, no futuro, na sua fase inicial dez jornadas, torna-se impraticável para os nossos clubes um calendário tão preenchido e sobrecarregado, tal como o temos hoje, nas provas nacionais.

Assim, face ao que pude conhecer da realidade dos clubes profissionais, das suas infraestruturas, dimensão e penetração social, tecido empresarial que os rodeia, os seus dirigentes e reforçado pela presença contínua durante os cinco anos que estive nas reuniões da Liga de Clubes, defendo uma Liga/primeira divisão com 14 clubes.

Esse campeonato teria 26 jornadas iniciais, seguido de uma fase de apuramento do campeão com os oito clubes melhor classificados.

Essa fase final de apuramento do campeão e dos futuros representantes nas competições europeias seria por eliminatórias. Começaria nos quartos de final, seguido de meias-finais e final com dois jogos cada (fora e em casa) cujo segundo e decisivo jogo seria no estádio da equipa mais bem classificada na fase regular/inicial.

Neste modelo, as equipas que fossem eliminadas nos quartos de final poderiam ainda assim disputar mais dois ou quatro jogos para chegar à melhor classificação possível e a uma possível vaga europeia (quinto lugar).

Esta fase decisiva, disputada apenas num período adiantado da época, permitiria uma melhor gestão dos plantéis ao longo da temporada e potenciava que os Clubes portugueses apostassem tudo em chegar às fases mais adiantadas das competições da UEFA. Ou seja, um Clube como o Sporting CP, por exemplo, querendo apostar tudo na performance europeia e que terminasse em oitavo lugar da fase inicial do campeonato, teria, ainda assim, todas as possibilidades de se sagrar campeão nacional. O mesmo aconteceria com qualquer outro clube que se apurasse para a fase final, tornando o campeonato muito mais emocionante, imprevisível e competitivo, dando, também por essa via, oportunidade a que outros emblemas pudessem atingir a conquista de títulos.

Na parte de baixo da tabela, haveria também uma competição para evitar a despromoção com os restantes seis clubes, dos quais apenas um desceria de divisão. Neste modelo que proponho, cada equipa disputaria um play-off, cruzando, das seis últimas, as mais bem classificadas da fase inicial do campeonato com as piores classificadas. Depois, as três vencedoras disputariam mais dois jogos entre si pela melhor classificação e as três derrotadas jogariam mais dois jogos entre si e a que tivesse os piores resultados, desceria de divisão.

Comparando os quadros competitivos dos seis países que sucedem, por ordem, Portugal, no ranking da UEFA, a Holanda que está em sétimo lugar tem 20 clubes no seu campeonato nacional, a Rússia em oitavo e com 16 clubes, a Bélgica em nono e com 18 clubes, a Áustria em décimo tem 12 clubes, a Escócia em décimo primeiro tem 12 clubes e a Ucrânia em décimo segundo com 14 clubes.

A Rússia e Ucrânia têm uma população muito superior à nossa, respectivamente, 144 e 44 milhões de habitantes, mas um PIB (Produto Interno Bruto) per capita inferior.

Os restantes países, têm uma população que não se afasta muito da nossa – Holanda com 17M, Bélgica 11M, Áustria com 9M e Escócia com 5,5M, mas com um PIB per capita superior ao português e, consequentemente, com os seus clubes a dispor de um mercado interno com mais capacidade de atrair empresas, patrocínios e gerar receitas superiores aos nossos.

Quero com isto demonstrar que quase todos os Países que se aproximam futebolisticamente de Portugal, com população e economia similares ou superiores à nossa, têm campeonatos com menos equipas e acredito que será essa a tendência.

Centralização de direitos

Subjacente e indissociável a esta proposta está a questão da centralização dos direitos televisivos.

Convém relembrar o que se passou em 2015. A eleição no final de Julho de 2015 do ex-árbitro Pedro Proença criou fundadas expectativas quanto à modernização e internacionalização do futebol português. No seu programa de actividades, além de outros aspectos reformistas e organizativos, estava bem assumida a necessidade de promover a negociação centralizada dos direitos televisivos.

Em Dezembro desse ano o SL Benfica, não respeitando a figura do novo Presidente da Liga e ao arrepio dos interesses do colectivo dos Clubes, abortou a possibilidade de uma negociação centralizada dos direitos televisivos e tomou a iniciativa de negociar directamente, com uma das plataformas, fechando, o que foi considerado na altura, um acordo histórico.

Tenho ainda presente o riso alarve de um comentador televiso ligado ao SL Benfica, regozijando-se por este acordo, considerando que o seu clube teria “secado” o mercado e obtendo para si grande parte da receita. É um mal que assola algumas mentes. Pensam pequeno e esse comentador, com essa teoria, demonstrou a sua mediocridade…

Acontece que, nesse mesmo ano de 2015, a 30 de Abril os nossos vizinhos espanhóis viram aprovado o “Real Decreto-Ley 5/2015” que impôs a negociação centralizada dos direitos televisivos. Esse acordo permitiu meses depois que a Liga espanhola obtivesse o dobro das receitas obtidas anteriormente e uma distribuição mais justa e equilibrada não só pelos clubes da primeira divisão, mas extensível, reforçando, como também defendo, à sua segunda prova nacional.

A Premier League há mais de vinte e cinco anos vende os seus direitos televisivos de forma centralizada, com os resultados que todos conhecemos. A injecção significativa de capitais nas sociedades desportivas permitiu a renovação nuns casos e a construção noutros de excelentes infraestruturas, criou condições de conforto nos estádios e horários dos jogos compatíveis com a presença das famílias e uma espectacular e imparável internacionalização do futebol inglês.

Todos os restantes Países que estão à nossa frente e cujas economias são muito superiores à nossa – Alemanha, França e Itália – têm a negociação dos seus direitos televisivos centralizados.

Veja-se que em Portugal no futebol, por imposição do distribuidor Sport TV, os principais jogos continuam a ser maioritariamente à noite, afastando muitas mulheres, crianças e jovens deste fenómeno desportivo, o que poderá comprometer, no meu entender, no futuro, as assistências nos estádios e audiências televisivas.

O Euro2004 trouxe uma melhoria nas condições dos estádios, é um facto. No entanto a utilização dos Estádios do Algarve, Aveiro e Leiria é residual. O de Coimbra não vê jogos da primeira divisão há vários anos.

Além das cinco equipas que já referi, os Estádios da Liga NOS que têm boas condições e dimensão são o remodelado estádio dos Arcos em Vila do Conde, do Rio Ave, o estádio do Bessa no Porto, do Boavista, o São Luís em Faro, do Farense, o estádio dos Barreiros no Funchal, do Marítimo, o estádio dos Açores em Ponta Delgada, do Santa Clara e o de Barcelos, do Gil Vicente, este último que, para mim, pela sua configuração, funcionalidade e capacidade para 12 mil pessoas deve ser uma referência para futuras ampliações/renovações. Caso se ultrapassem os conflitos entre o clube e a SAD, “os Belenenses” teriam também no Estádio do Restelo uma boa e óbvia solução.

Pelo contrário, os estádios do Famalicão, Portimonense, Tondela, Moreirense e Paços de Ferreira, cumprindo os requisitos regulamentares para jogos da primeira liga (que me desculpem os seus dirigentes que conheço, admiro e tenho a maior estima) são de capacidade reduzida para albergar público para uma liga de topo na Europa.

Na actual segunda liga de Portugal, com excepção do estádio de Coimbra, da Académica, nenhum outro clube tem um estádio que se aproxime dos 12 mil lugares, que me parece ser o patamar mínimo para um clube de uma Liga forte e competitiva, sobretudo se queremos tornar o nosso produto televisivo atractivo para exportação.

Para encontrar outros estádios no País com dimensão e clubes com massa crítica de adeptos, só no Campeonato Nacional de Seniores. Temos apenas a sul, o Fabril do Barreiro (antiga CUF), que tem um estádio para 22 mil pessoas, o estádio do Bonfim do Vitória de Setúbal com 15,5 mil, o estádio Manuel Marques em Torres Vedras, do Torreense, para 12 mil pessoas, todos necessitando de remodelação.

Para que um espectáculo televisivo tenha interesse é fundamental mostrar ambiente: calor do público em vez de bancadas vazias. Temos um problema de dimensão. O preço dos bilhetes de futebol é absurdo para a maioria da nossa população e torna-o muitas vezes inacessível.

Outro aspecto prende-se com o efeito cénico. A Liga e a Sport TV podiam, ainda assim, ter a clarividência de mudar os planos das câmaras e filmar os jogos no sentido das preenchidas bancadas principais em vez de filmarem, tantas vezes, para bancadas vazias ou quase despidas de público.

O Presidente da Liga está no cargo há cerca de seis anos e muito do que prometeu não cumpriu. Claro que se notam melhorias nos aspectos organizativos, a situação financeira da Liga foi resolvida, hoje no léxico do futebol português entraram anglicismos como “stakeholders”, “work in progress”, mas recordo uma declaração do mesmo em 2016 referindo-se ao futebol português: “um produto que já é de excelência, mas que pode ser ainda mais valorizado”. Será que em 2016 o futebol português era de excelência? Está melhor agora passados seis anos? Quando assistimos a tanta agressividade dentro e fora dos campos? Quando continuamos a ter um calendário de jogos cujas datas dos mesmos são marcadas com uma antecedência mínima? Quando os clubes não têm verdadeiras linhas de apoio para a renovação/ampliação das suas infraestruturas e só quando têm a sorte de transferir um jogador por uma verba avultada é que conseguem ter dinheiro para tal? Quando existem estádios sem condições para colocar câmaras de televisão de apoio ao vídeo-árbitro? Onde está a prometida internacionalização do futebol português? Em que Países o campeonato português é acompanhado como o são as principais ligas da Europa? Será que a qualidade do nosso futebol é inferior à dos russos, turcos, belgas, holandeses, escoceses para que os campeonatos destes estejam presentes pelo mundo e a nossa liga menos exposta?

Compreendo que perante a nossa endémica imprevisibilidade do calendário, estádios sem dimensões e ainda assim sem público, preços altos dos ingressos, violência que nunca foi verdadeiramente combatida e por isso não resolvida, é de facto difícil exportar a nossa Liga. Mas não podemos assobiar para o lado e fingir que não é nada connosco.

Pedro Proença é um bom gestor, aliás a sua actividade profissional anterior assim o demonstra, mas, para ser um bom líder, teria que ter rasgo, criatividade e força. Pelo contrário, Pedro Proença foi sempre um líder esmaecido, assolado pelas diabruras do SL Benfica e dos seus parceiros e figura menor no seio da Federação Portuguesa de Futebol onde é, por inerência, vice-presidente. Para o pecúlio de perto de dois milhões de euros em salários quando terminar o seu mandato em 2023 parece-me muito para o pouco que, até agora, aportou.

A Liga terá que ser muito mais assertiva e criativa. Conseguir negociar uma mais justa repartição das receitas televisivas e um tabelamento dos preços adequado à realidade económica dos portugueses. Os estádios têm que ser ampliados e melhorados. Os horários dos jogos antecipados para que as famílias possam assistir. Com isso teríamos mais espectadores, tornando os espectáculos mais interessantes dentro dos recintos, mas também para quem assiste pela televisão, seja em casa, nos cafés, nos Núcleos ou por esse Mundo fora.

O anúncio por parte da Federação Portuguesa de Futebol em conjunto com a Liga de Clubes, corroborado pelo Governo e promulgado pelo Presidente da República quanto a uma negociação centralizada dos direitos televisivos, impunha-se. Era necessário e fundamental.

Segundo foi veiculado, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Liga Portugal (LPFP) terão de apresentar uma proposta de modelo centralizado de comercialização até ao final da época 2025/26 e a nova distribuição de verbas tornar-se-á efectiva a partir da época 2028/2029. Mas isso não será tarde demais? Mais de 30 anos depois dos ingleses o terem feito e quase 15 anos relativamente aos espanhóis e restantes países da primeira linha europeia? Vamos ter que esperar mais sete anos pelos novos contratos com riscos sérios de irreversível perda de competitividade? Será que a sociedade veículo, a ser criada pela Liga de Clubes e Federação, não consegue negociar junto das plataformas a antecipação de prazos, revendendo com mais valias e ainda assim distribuir valores relevantes, que permitam investimentos pelos chamados clubes pequenos e da segunda Liga? Muito provavelmente nem Fernando Gomes nem Pedro Proença serão os protagonistas nessa altura, mas seria bom que ambos fossem capazes, antes de terminarem os seus mandatos, de deixarem esta tarefa concluída.

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