summary_large_image
RENASCIMENTO DA FORMAÇÃO
Aos jovens que agora despontam, desejo o maior sucesso, que tem de começar por perceberem que a maior honra que têm é a de poder usar em campo a camisola e o emblema do Sporting Clube de Portugal.
03 Jul 2020, 12:00

O futebol sem público nas bancadas é um espectáculo mais pobre. Falta-lhe o som, o colorido, a festa. Falta-lhe gente. E nós sentimos a falta de ver os jogos na bancada. É incomparável a experiência de ver o Sporting ao vivo, no estádio, com saltos, cânticos e gritos de apoio, ou estar em casa, sentado no sofá, a ver pela televisão.

Dadas as circunstâncias de todos conhecidas, relacionadas com a pandemia que nos assola há tempo demais e cujo fim, infelizmente, ainda não se vislumbra, não temos outra solução senão vibrar com o Sporting pela televisão.

E é assim que temos podido acompanhar, com bastante agrado, os primeiros resultados do trabalho que o novo treinador está a fazer e da correcção que a estrutura do futebol leonino implementou no rumo que vinha sendo seguido.

Ruben Amorim está a apostar nos talentos formados na Academia como nunca nenhum treinador, no Sporting, fez. Creio até que esta aposta consistente em jogadores muitos jovens dos escalões de formação, lançados quase todos ao mesmo tempo e jogando em simultâneo na equipa principal, de forma continuada, talvez não tenha qualquer paralelo na história do futebol português.

Vejamos: esta quarta-feira, na recepção ao Gil Vicente, jogaram de início Luis Maximiano (21 anos, no Sporting desde 2012/2013), Eduardo Quaresma (18 anos, no Sporting desde 2011/2012), Nuno Mendes (18 anos, no Sporting desde 2011/2012), Matheus Nunes (21 anos, mas só ingressou nos sub-23 do Sporting em 2018/2019), Rafael Camacho (20 anos, na formação do Sporting de 2008/2009 a 2012/2013, com passagens posteriores por Manchester City e Liverpool) e Gonzalo Plata (19 anos, veio para a equipa de sub-23 em 2018/2019).

Entraram ainda, no decorrer do jogo, Tiago Tomás (18 anos, no Sporting desde 2014/2015) e Joelson Fernandes (17 anos, no Sporting desde 2014/2015).

Ou seja, foram utilizados cinco jogadores “produtos puros” da Academia (Max, Quaresma, Nuno Mendes, Tiago Tomás e Joelson), um que é um misto de Academia Sporting e de outros clubes (Camacho) e dois que, apesar de não serem da formação do Sporting, tiveram passagem pelos escalões de formação antes de ascender à equipa principal (Plata e Matheus Nunes). Oito jogadores, num único jogo.

Não jogou por lesão, mas o jogador mais decisivo da equipa tem sido outro jovem também ele produto da Academia, Jovane Cabral (22 anos, no Sporting desde 2014/2015).

E, apesar de não serem da formação do Sporting, convém termos presente a grande juventude de outros dois jogadores habitualmente titulares ou utilizados, como Wendel (22 anos), ou Doumbia (22 anos).

Ou seja, o Sporting tem neste momento em curso uma autêntica revolução no plantel, operada com “pés de veludo”, em que a aposta passa por jovens com potencial, abandonando de vez a ideia de que são os Jesés ou Bolasies  (ou Rosiers ou Viettos) desta vida que podem ajudar o futebol do Sporting a crescer e a ter futuro.

Esta é uma grande inflexão no sentido que vinha a ser seguido na gestão do plantel e dos activos, por parte da estrutura do futebol, no mandato do actual Conselho Directivo.

E parece ser, face aos resultados alcançados até agora – e no fim, são quase sempre os resultados que ditam o veredicto dos adeptos – uma estratégia mais acertada, depois de um período bastante errático e com vários disparates cometidos. Saúde-se quem sabe aprender com os erros e corrigi-los, se este caminho for para manter.

Foi muito bonito ver todos estes jovens jogar com os nomes das maiores glórias do futebol  do Sporting nas camisolas. Que bom foi ver “Balakov” a marcar e a ser abraçado por “Jordão”. A estes, aos verdadeiros, vi-os jogar ao vivo. Eram e são símbolos enormes e eternos do Sporting.

E devem ser lições também.

Em primeiro lugar, os jovens que agora tiveram os nomes das grandes glórias na camisola têm de saber que esses jogadores nunca tiveram o nome na camisola. Não se usava, não existia. O colectivo e o clube eram o mais importante, o que realmente contava.

Têm  também de saber que estes ídolos trabalharam sem se porem em bicos dos pés, sem se armarem em estrelas, sem acharem que eram maiores que o próprio clube. Jogaram no Sporting com a consciência de que o Sporting é um dos maiores e melhores clubes do mundo, sem estarem preocupados em “dar o salto”. Estavam apenas preocupados em, com Esforço, Dedicação  e Devoção, ajudar a trazer a Glória para o Sporting.

E todos foram Campeões. Porque só os campeões ficam na história dos clubes e do Futebol.

Não partilho a ideia de “zero ídolos”. Rui Jordão é para mim um ídolo maior do Sporting e do futebol. Nunca vi jogar Travassos, Peyroteo ou Yazalde. Mas Jordão, vi-o jogar tantas vezes ao vivo, em Alvalade e fora. Esteve 10 épocas no Sporting, sempre humilde, sempre a trabalhar para a Glória do clube, e só assim alcançou a sua própria Glória, só assim ainda hoje é recordado como um dos nossos maiores, com direito a ser recordado nas nossas camisolas. Tive ainda o privilégio de, já depois dele ter pendurado as chuteiras, era eu ainda um adolescente, cruzar os meus caminhos com os dele e ter tido a possibilidade de conviver com ele e de testemunhar a sua grandeza e integridade humana, muito para lá do futebol.

Tenho por isso muito cuidado em erigir deuses precoces. A história faz-se enquanto acontece, mas só se escreve depois de acontecer, nunca antes. Se esta nova fornada, este novo pulsar de leões, quiser um dia, daqui a muitos anos, ter os seus nomes nas camisolas que vierem a ser usadas por futuras novas gerações, têm de saber que o Sporting não é uma plataforma para outros voos, é um clube que têm de servir como se fosse o único, ao serviço do qual têm de dar tudo e ao serviço do qual têm de ganhar e de se tornarem campeões.

Na história de clubes como o Sporting, só ficam os campeões. Mas não basta.

Ficam os homens íntegros e que respeitam o Sporting.

Aos jovens que agora despontam, desejo o maior sucesso, que tem de começar por perceberem que a maior honra que têm é a de poder usar em campo a camisola e o emblema do Sporting Clube de Portugal.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

  Comentários
Mais Opinião