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SEM TÍTULO(S)…
É-me difícil entender o aparente desinteresse dos nossos sócios. Será que estão satisfeitos ou, pior, chegaram a um ponto em que já estão conformados com esta perda de espírito competitivo?
Imagem de destaque15 Fev 2023, 06:00

Muitos artistas, pintores, fotógrafos, poetas e outros, por vezes, não conseguem dar um título às suas obras e refugiam-se nesta frase: “Sem Título”. Isso, não tira valor à obra nem, muito menos, ao artista. É uma maneira de se contornar a dificuldade que lhes acontece, por vezes, ao tentarem traduzir numa palavra ou numa frase aquilo que querem transmitir. Assim, o artista deixa a quem aprecia a obra a interpretação própria do que vê. Ou, talvez seja isso, ele considera tão óbvio aquilo que quer transmitir que entende não ser necessário atribuir-lhe um título.

O que é que estas considerações têm a ver com o Sporting? Parece que nada, mas até têm.

Têm a ver com a época e o momento atual da vida desportiva do nosso querido clube e, como tal, a expressão “sem título(s)”, tem cabimento neste arrazoado de considerações. E, portanto, se tem a ver com o momento atual da vida desportiva do nosso clube, tem a ver com quem o gere e dirige. Com os seus decisores.

É frequente dizer-se que o importante é competir e que só um é que pode ganhar. Concordo: claro que sim. Mas, também nunca ouvi dizer que perder sempre ou muitas vezes é bom, pelo menos em clubes que têm a tradição e na sua história as muitas e muito frequentes vitórias nos jogos, nas competições e nos torneios que disputam.

O Sporting Clube de Portugal tem, felizmente, uma história tão rica, tão gloriosa, de vitórias e títulos que se constituiu, por mérito dos seus atletas, técnicos, dirigentes, sócios e adeptos, num dos clubes mais importantes e maiores do nosso país, da Europa e até (em tantas modalidades) do mundo. Esta é a nossa memória. E, como dizia o meu amigo Jorge Lopes num anterior artigo neste mesmo espaço: A grandeza de uma instituição depende da capacidade de preservar a memória dos seus acontecimentos, figuras e símbolos, reforçando, com esse processo, a sua identidade e lançando as bases para o futuro. E a nossa história ensina-nos que somos um clube vencedor, de vitórias e de títulos. E é este desígnio que todos temos de preservar contribuindo, cada um de nós nas suas funções e na sua vida coletiva dentro deste universo, de que muito nos orgulhamos, para que continuemos a honrar o passado e a construir um futuro que não venha a esbater ou mesmo a apagar essa história, essa memória e esse desígnio de clube vencedor. Parece, e este facto serve apenas de um exemplo, que o nosso enorme Madjer foi “apagado” do nosso Museu! Se é verdade, cada qual que faça o seu juízo… à luz do que acima está escrito.

Acho, portanto, que, este ano, esta época, temos mesmo de recorrer a esta fórmula: “sem título(s)”. Está a ser uma época muito má em todas as modalidades a começar pelo nosso futebol profissional, masculino e feminino. Somam-se, à deficiente construção do plantel, as aquisições de jogadores com lesões repetidas e que não conseguem ser opções úteis e imediatas, as vendas precipitadas, sem serem acauteladas as necessárias alternativas de igual qualidade, a preços quase de saldos, em tempos inoportunos e nunca explicadas aos sócios, sem sabermos para onde foi o dinheiro do lucro obtido (mais um exemplo) com a venda dos últimos  jogadores (Nuno Mendes, João Palhinha, Matheus Nunes e outros) num total de cerca 120 M€ contra aproximadamente 46 M€ de aquisições mais empréstimos.

A teimosia de não se entender a premente necessidade de reforçar certas posições na nossa equipa principal, refiro-me ao ataque e à falta de pelo menos mais um ponta de lança que possa, no imediato, ser alternativa ao que temos, e que não tem justificado o seu considerável custo, aplaudindo sempre o aproveitamento e a utilização de jovens da nossa formação, a que se somam as inúmeras dispensas de atletas e técnicos em várias modalidades, a extinção de muitas delas, algumas até com títulos nacionais e internacionais, também pouco justificadas.

Tudo isto se resume, enfim, na falta de critério e de investimento que qualquer empresa tem sempre de fazer se quer competir com as demais do mesmo negócio e não perder, irremediavelmente, terreno e prestígio. Um conjunto de decisões que, nos tempos mais recentes, condicionam, e muito, a performance de quem luta nos estádios e pavilhões, o seu entusiasmo e procura de vitórias, e até, não é de admirar, as fraquíssimas assistências quer no nosso estádio, quer no nosso pavilhão. Os números, os resultados, as classificações, falam por si e confirmam o que aqui, com grande pesar na alma, trago à consideração de quem tiver a bondade e a paciência de me ler.

Estranho que, falando eu e ouvindo, frequentemente, tantos sócios e adeptos do nosso clube que sentem, e de que maneira, todas estas preocupações, essas vozes não cheguem lá acima aos gabinetes do Conselho Diretivo ou, se chegam, e quero crer que sim, não desencadeiem as reações e ações necessárias e urgentes para estancar esta evolução preocupante e que nos pode vir a conduzir a uma posição que vá ferir a tal história e memória.

É-me difícil entender também o aparente desinteresse dos nossos sócios sobre estas realidades. Será que estão realizados e satisfeitos com tudo isto ou, pior ainda, chegaram a um ponto em que já estão acomodados e conformados com esta perda de espírito competitivo e de ambição? Há, na minha opinião, fruto da minha vivência clubística de mais de 70 anos, um barómetro, entre outros, para aferirmos o “estado de saúde” anímico do nosso clube. Esse barómetro tem dois parâmetros que são: o número de presenças em permanência de sócios nas nossas Assembleias Gerais não eleitorais e o número de sócios (em média) presentes nos jogos no pavilhão João Rocha e no Estádio Alvalade XXI. E os números, meus caros consócios, são, nestes últimos dois ou três anos, verdadeiramente desalentadores. E falam por si.

Aos 82 anos de idade e algumas maleitas, já me faltam forças e élan para ser mais ativo e assumir intervenções, sempre com objetivos construtivos, em oportunidades que se nos deparem.

Resta-me, pois, esta forma de transmitir a minha opinião e, por vezes, o meu desgosto e as minhas preocupações sobre o que se vai passando no nosso clube e que vamos sabendo por aqui e por ali. Mas, na alma, podem crer, amigos Sportinguistas, sou cada vez mais apaixonado, entusiasta e inconformado pelo meu Sporting. E ainda muito orgulhoso do lema que trago no coração, Hoje e Sempre Sporting!

 

João Trindade – Sócio nº 232 

Fevereiro, 2023

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