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“TOTAL RESPONSABILIDADE” DO DR. VARANDAS. E AS CONSEQUÊNCIAS, QUEM AS SOFRE?
O que o Frederico sabe, ficou mais que provado, é muito pouco. Não chega. Rodeie-se de quem efetivamente saiba e deixe que eles o ensinem.
31 Jul 2020, 09:00

Tinha vários temas para esta crónica, mas ela não pode deixar de ser sobre a entrevista com que o presidente do Sporting Clube de Portugal nos brindou esta semana.

E não pode deixar de ser sobre essa entrevista, adicionando mais alguns comentários aos muitos que já foram feitos por diferentes quadrantes, porque penso que ela é o espelho fiel dos problemas com que Frederico Varandas se debate. E o maior problema com que o presidente do Sporting se debate chama-se mesmo… Frederico Varandas.

Comecemos então pelo princípio, pela frase que foi escolhida para capa do Record e fio condutor da entrevista. “Assumo total responsabilidade”. Muito bem, presidente. Fica-lhe bem. Afinal, foi o presidente que nos vendeu que, para si, “Futebol, fácil”. Foi também o presidente que afirmou, quando veio a público explicar a substituição de Keizer (“o treinador com o perfil certo para o nosso projeto”, tinha dito em tempos) por Leonel Pontes, que “quem contesta o trabalho desta Direção ou não percebe nada de futebol ou é intelectualmente desonesto”.

Como podia não assumir a total responsabilidade? Afinal, quem é o chefe máximo do futebol profissional do clube, quem manda, quem escolhe, quem decide, é o Frederico Varandas, não é? Obviamente, a responsabilidade de tudo o que correu mal – e correu quase tudo mal – é sua. Nós já sabíamos. Não era preciso voltar a dizer-nos.

O problema, caro presidente, é que você, envolto em toda a arrogância e falta de humildade que as suas declarações acima demonstram, somou erros atrás de erros no futebol. Tem uma estrutura que falhou redondamente no futebol e é incapaz de o ajudar no scouting de verdadeiros novos talentos, nas movimentações do mercado, na identificação de necessidades e na construção dum plantel competitivo.

Se calhar, a “estrutura” até o tenta ajudar, mas você talvez não os ouça. Talvez também os ache “intelectualmente desonestos”.

Como, aliás, por palavras mais contidas, Silas tentou explicar, ao afirmar que tinha “opiniões e ideias muito diferentes” das suas sobre “muitos temas do Sporting” (mas imagino que, basicamente, ligados ao futebol, não vejo Silas a tentar meter-se noutros “temas” que não esses).

Silas assegurou ainda, na mesma recente entrevista, que o presidente e o diretor desportivo do Sporting são “pessoas muito bem intencionadas”. Mas de boas intenções está o inferno cheio, como sabe.

As intenções são importantes e nem por um segundo questiono as suas. Mas a verdade é que, esta época, a primeira (e única, até ao momento) preparada inteiramente por si, correu tudo mal. Quatro treinadores. Plantel totalmente desvalorizado. No final, em desespero, efetuou a terceira mais cara transferência da história do futebol mundial de um treinador, indo buscar à equipa com a qual o Sporting estava a disputar o 3º lugar um jovem com boa pinta, óptimo discurso, mas sem currículo, totalmente inexperiente e sem qualquer prova dada. !0 milhões de euros (ainda por pagar). “Azar dos Távoras”, acabámos em 4º, atrás desse clube ao qual fomos buscar o treinador.

Tivemos o maior número de derrotas numa só época de toda a nossa história. Ficámos a uma inconcebível distância de 22 pontos do primeiro classificado.

Frederico Varandas, na entrevista ao Recorde, “assume total responsabilidade”, mas nenhuma culpa. Essa, é da “herança”. Das arbitragens. Da transferência do Bruno Fernandes. De Alcochete. Dos jovens que ainda estavam verdes no início da época mas agora, aparentemente, já estão maduros. Deve ser do calor.

Frederico Varandas, aliás, elogia muito o novo treinador justamente por lançar os jovens. Por lhes dar oportunidades. Esse é um trunfo do novo treinador. E eu fico na dúvida. Mas afinal, o projeto de lançar jovens não era o seu, o da “estrutura”? Não foi essa uma das razões pela qual nos disse que tinha vindo Keizer? Mas, afinal, a “estrutura” não conseguiu fazer valer a sua visão? Foi preciso chegar Ruben Amorim? Se fosse outro o treinador, os jovens podiam continuar sem jogar? Então, para que serve a “estrutura”?

Já agora, quem comprou inúmeros jogadores, que custaram algumas dezenas de milhões de euros, e que não foram capazes de assegurar qualquer rendimento desportivo, nem perspetivas de desenvolvimento, tapando dessa forma as oportunidades dos tais jovens que agora são a nossa esperança num futuro melhor? Ah, estavam verdes. Agora já não estão. OK.

Bom, esta é uma das muitas perplexidades que a entrevista nos deixa.

Só mais algumas.

Relativamente à revisão dos Estatutos, refere com muito carinho o voto electrónico (não sou contra), uma matéria que é polémica e que está longe de ser prioritária, desvalorizando a 2ª volta nas eleições, essa sim absolutamente essencial e urgente. Isto não cabe na cabeça de ninguém, nem tem explicação plausível. Se é só para o voto electrónico, mais vale estar muito quietinho e caladinho.

Fala também da remodelação das competições profissionais, avançando com uma pífia proposta de redução para 16 das equipas na 1ª Liga. A sério? É mesmo isto o melhor que o Sporting tem para propor? Modelos disruptivos e verdadeiramente inovadores em Portugal, com campeonato com 12 equipas, por exemplo, todos contra todos a duas voltas, findas as quais os seis primeiros jogam também a duas voltas para apuramento do campeão e competições europeias, e os seis últimos jogam entre eles para a descida de divisão. O que acha disto? Não seria um campeonato mais interessante, com pelo menos mais dois jogos por época entre as melhores equipas, gerando maior competitividade, interesse, espectáculo e… receitas? Não me diga que o melhor que conseguem pensar é mesmo reduzir em duas equipas a 1ª Liga…

O pior, presidente, é a sua afirmação de que o Sporting será sempre gigante. É essa a declaração que mais me preocupa. As duas únicas coisas que ainda fazem o Sporting gigante são a sua história e conquistas (as mais importantes, no futebol, infelizmente já bastante remotas) e, sobretudo, a massa adepta. Esta imensa mole de adeptos e sócios. Aqueles que, em parte, o Frederico trata como “escumalha”, “intelectualmente desonestos”, “que não percebem nada de futebol”.

O Sporting, Frederico, não é eterno. Se continuar a ser maltratado, se continuar a ser apoucado, se continuar a ver a sua glória mitigada, vai perder apoio, militância, adeptos apaixonados e envolvidos.

A paixão que rodeia o clube pode-se ir apagando. Lentamente. Devagarinho. Pode levar gerações. Mas pode acontecer.

O nosso futuro – meu, seu, dos sportinguistas, do que nos une, o Sporting Clube de Portugal – não pode perder mais tempo.

A construção desse futuro exige humildade. A sua humildade. A humildade de aceitar as consequências das responsabilidades que assume. E essas consequências têm de passar, necessariamente, por devolver o futebol a quem sabe verdadeiramente de futebol. O que o Frederico sabe, ficou mais que provado, é muito pouco. Não chega. Rodeie-se de quem efetivamente saiba e deixe que eles o ensinem.

Essas são as consequência que o presidente do Sporting tem de assumir.

Caso contrário, consequências ainda mais graves vão cair no colo do Sporting e dos sportinguistas, que são enormes, generosos, de um amor eterno ao clube, mas que não devem pagar por mais erros cometidos por aqueles que, circunstancialmente, mandam no clube.

Já são muitas décadas desses erros. E das respetivas consequências, sempre sofridas pelos mesmos.

As responsabilidades, essas, sabemos sempre todos de quem são.

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