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UM EXERCÍCIO SOBRE AS CONTAS
Não é por se ser uma alternativa que temos de embarcar em tudo o que possa ajudar à ideia que se pretende implantar. Falo da 'notícia' em que se refere que “55% das Vendas foram desperdiçadas.
06 Mar 2021, 09:41

Começo este texto com uma mensagem importante. Não é por se ser assumidamente uma alternativa que temos de embarcar em tudo o que possa ajudar à ideia que se pretende implantar. Falo da “notícia” em que se refere que “55% das Vendas foram desperdiçadas”. Como é óbvio, e talvez por desconhecimento de quem escreveu, confundem-se naquele artigo conceitos contabilísticos de reconhecimento de custos na Demonstração de Resultados com aquilo que é o Cash Flow.

Assim, que fique claro, não desapareceu dinheiro. A grande vantagem das Demonstrações Financeiras constantes do Relatório e Contas, quando são feitas sem “criatividade” e raramente o são, é que a leitura das três peças – Balanço, Demonstração de Resultados e Mapa de Cash-Flow – não é muito dado a opiniões, mas sim a análises factuais.

Não deve haver documento mais escrutinado que os Relatórios e Contas dos três Grandes, mais até que dos pesos pesados do PSI20, mas por isso mesmo deveria de haver por parte dos responsáveis do Sporting um esforço para que, até em nome da transparência, fosse divulgada uma versão mais pedagógica, com maior detalhe nos pontos que mais interessam aos Sportinguistas. Sem flores a embelezar e sem bichos papões, como o COVID ou “heranças pesadas” pelo lado das desculpas.

Para além desta versão para os Sócios, deveria haver, trimestralmente, sessões de esclarecimento abertas aos Sócios e aos Órgãos de Comunicação Social. Igualmente, deveria o Sporting proporcionar aos seus Sócios sessões de formação de “Finanças para não financeiros”, de modo a elevar o conhecimento e a literacia nestes temas.

Sócios bem formados dificilmente serão enganados por clickbaits ou por puro desconhecimento da matéria por parte de quem escreve. Simultaneamente, ficarão mais imunes a atos propagandísticos de quem fazia de 40 milhões de dívida a Fornecedores uma catástrofe, mas que agora já convive bem com uma dívida a fornecedores de 88 milhões – 72 milhões já reconhecidos a 31 de dezembro, aos quais teremos de juntar os cerca de 16 Milhões da transferência de Paulinho. Isto, quando de Clientes temos a receber apenas cerca de 20 Milhões de euros.

Vamos fazer um exercício e proponho-lhe que tire daí as suas próprias conclusões.

Imaginemos que o Senhor Francisco tem uma mercearia e compra uma balança por 1.000 euros ao Senhor António. O Ativo do Senhor Francisco aumenta 1.000 – o Ativo é registado pelo valor de aquisição. Se pagar a pronto os seus Depósitos à Ordem – outra conta do Ativo – descem pelo mesmo valor, por outro lado se quem lhe vende passar fatura a 12 meses esse valor irá para a conta Fornecedores – conta do Passivo.

No final do ano, a contabilista do Senhor Francisco levará a custo de exercício apenas 200 euros, pois a vida útil da balança é considerada em 5 anos – 1.000 euros a dividir pelos 5 anos = 200 euros, ou seja, ao fim de 5 anos está obsoleta e será preciso comprar outra – e, assim, o Ativo no final do ano será de 800 euros e não os 1.000 da aquisição. O Resultado Líquido será abatido em 200 euros pelo custo reconhecido nesse exercício. Já em termos de Cash Flow o Senhor António decidiu não pagar a pronto pelo que este Mapa não regista nenhuma saída no ciclo de investimento. Já o Balanço, do lado do Passivo, fica com a dívida a Fornecedores de 1.000 euros.

A meio do ano seguinte o Senhor Mendez, em representação do Senhor Monchi que tem uma mercearia em Sevilha, entra na mercearia do Senhor Francisco e faz-lhe uma proposta de 900 euros pela balança, proposta essa que é aceite pelo Senhor Francisco, pois os salários e restantes custos de exploração que tem ultrapassam as receitas que a mercearia está a gerar. Entretanto o Senhor Mendez por intermediar a venda passou uma fatura no valor de 10% da transação, ou seja, 90 euros.

No final desse ano a Contabilista terá de fazer o abate dos 800 euros referentes à balança, pois esta já não pertence ao património da mercearia do Senhor Francisco, levando esse valor a custo do exercício. Por outro, lado tem de registar a Venda da balança pelos 900 euros nos proveitos. A diferença de 100 euros é a mais-valia contabilística que será tributada. O acordo com o Senhor Monchi era que ele pagaria ao fim de 12 meses, mas como o Senhor Francisco estava sem dinheiro na Tesouraria, foi ao seu banco pedir o adiantamento do valor sobre a fatura. Para tal o seu banco cobrou-lhe 5% de juros/ano e disponibilizou imediatamente 900-5% = 855 euros os quais usou para pagar os salários e outros fornecimentos externos necessários à continuação do negócio, pois tinha sido eliminado de um concurso europeu onde pensava ir ter receitas avultadas.

Assim, no final de dezembro o Senhor Francisco não tinha salários em atraso, mas estava sem a balança e esta, como é óbvio, já não estava no seu Ativo. O dinheiro em Depósitos à Ordem era pouco, dando para mais um mês de ordenado, e já não tinha nada a receber do comprador pois tinha cedido esse direito ao banco. No entanto, continuava a dever ao Senhor António a quem tinha comprado a balança e com o qual tinha acordado que a dívida passava a ser de 1.200 euros para que este prolongasse o tempo para receber e retirasse a execução da dívida em tribunal. Estava a dever ao Senhor Mendez os 90 euros e tinha incorrido em custos de financiamento com o seu banco no valor de 45 euros para se financiar, mas o Resultado do exercício graças à venda da balança não era tão negativo pois os 100 euros das mais-valias disfarçavam os resultados operacionais muito negativos. Já o Mapa de Cash Flow, mostrava que as entradas do ciclo de investimento continuavam a financiar as necessidades do ciclo operacional.

Passou dezembro e no arranque do ano o Senhor Francisco foi comprar outra balança, a mais cara de sempre, por 1.600 euros, aumentando ainda mais a dívida que tinha ao Senhor António sempre com o pensamento que no ano a seguir o concurso europeu iria dar boas receitas, mas que na verdade apenas cobrirão cerca de um terço da dívida a Fornecedores.

Se estivéssemos na Universidade, este poderia ser um exame em que, além de se ter de construir as Demonstrações Financeiras, ter-se-ia que fazer a análise económica e financeira deste negócio e desta gestão, mas, infelizmente, não estamos, e se pegarmos no exemplo e substituirmos a mercearia do Senhor Francisco pela Sporting SAD, e substituindo a balança pelos jogadores transacionados, teremos o modelo de negócio que tem sido prosseguido por esta administração.

O exercício está feito, agora retire as suas próprias conclusões.

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