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ZERO ÍDOLOS NÃO É SOLUÇÃO
Peyroteo abandonou o futebol para poder receber verbas que lhe permitissem salvar uma sua loja que estava com dificuldades financeiras.
05 Mai 2020, 09:00

O texto do meu colega de opinião no Leonino, Nuno Santos, da passada quinta-feira (1) traz à colação um assunto que considero importante avaliar neste fórum mas também ao nível do que cada um de nós, Sportinguistas, entende ser importante num jogador que, inserido numa estrutura desportiva se pretende que seja ou esteja i) com amor ao símbolo que se traz ao peito, ii) raçudo (que “coma a relva”), iii) com qualidade técnica e iv) ambicioso. A ordem dos fatores aqui expostos depende de cada um dos Sportinguistas. E um dos problemas que muitos de nós identificamos prende-se com o quarto fator: a ambição. Pois que se esta é bem vista quando o jogador quer ganhar títulos e comendas, uma grande parte dos adeptos desgosta quando os atletas mostram interesse em auferir maior rendimento ou prosseguir para outros campeonatos. E, como o Nuno Santos referiu, esse tem sido uma característica da nossa relação de amor/ódio com os nossos jogadores.

Esta relação de amor/ódio surge da parte dos mesmos atletas pois, sendo verdade que frequentaram uma academia como a do Sporting e podem ter algum reconhecimento, é natural que procurem outras alternativas porque, lá está, para eles parou de ser um processo educativo e com algum prazer associado, para uma realidade profissional intensa. Numa entrevista publicada no dia 27 de abril passado (2), o ex-atleta do Sporting, Edgar Marcelino, refere essa relação, que é incompreendida por muitos, de quando o amor se torna ódio (e, muitas vezes, mais tarde se torna arrependimento). É esta relação que pretendi expressar no meu texto (3) em que refiro o caso de Rafael Leão e das ações que cometemos e que não podemos avaliar sem compreender o que é a cabeça de um adolescente de 19 anos.

Nuno Santos inicia a sua cronologia com Paulo Futre. Pois eu tenho tentado ir lá mais atrás no tempo, chegando a algum tipo de relação mais intempestiva com um ou mais jogadores importantes do Clube e que tenham entrado em algum tipo de braço-de-ferro com a Direção. Cheguei a um atleta bem lá longe. No ano de 1928, em que o jogador Jorge Vieira levantou, em nome da sua equipa, questões relativas a remunerações, num tempo de mudança do paradigma amador para a realidade profissional (e que, apesar de ainda ser no final do século anterior, a série da Netflix, “The English Game”, tão bem retrata). Naquele tempo, a “questão Jorge Vieira”, como foi apelidada, originou a saída do Presidente Joaquim Oliveira Duarte (que regressou mais tarde, em 1932, para passar a ser o segundo presidente com maior longevidade na história do Sporting Clube de Portugal).

Outrossim, num processo de alguma forma inglório, Fernando Peyroteo abandona o futebol, no ano de 1949. Esta foi uma realidade que a história identifica como a necessidade de o atleta poder receber verbas que lhe permitissem salvar uma sua loja que estava com dificuldades financeiras. Ao que parece, 100 contos teriam permitido que o jogador se mantivesse a jogar no Sporting e, provavelmente, permitiriam ao Sporting ganhar muitos mais títulos.

Não esqueço também as peripécias com Eusébio, em 1960, que permitiram que o jogador assinasse com o Sport Lisboa e Benfica. A propósito de Eusébio, e face à realidade daquele tempo, continuo a achar que deveria haver no Museu do Sporting um espaço para mostrar um jogador que também se pode considerar como tendo feito parte da sua formação, pois jogou três anos no Sporting de Lourenço Marques (hoje Clube de Desportos do Maxaquene), tendo sido campeão distrital e provincial.

Com este pequeno artigo, pretendo acrescentar alguma informação adicional, na continuação do que o Nuno Santos escreveu. E com isto alertar para o que entendo ser, desde há muitos anos, uma relação de alguma forma paternalista dos jogadores, que tem conduzido a que muitos (demais) jogadores da formação do Sporting dele saiam com rancor, e que hoje, salvo honrosas exceções, o Clube perca a ligação a muitos que são vistos, muitos anos depois, como mercenários, traidores e mal agradecidos. Quando são tantos e tantos, o problema não será, certamente, só dos jogadores.

P.S. obrigado mais uma vez ao magnífico Wiki Sporting, onde muitas das referências que faço vêm lá perfeitamente detalhadas.

[1] https://leonino.pt/opiniao/os-temas-da-moda/

[2] https://www.publico.pt/2020/04/27/desporto/entrevista/chipre-tirava-fotos-boxers-aparecer-revistas-corderosa-1913911

[3] https://leonino.pt/opiniao/vendem-o-que-nao-compraram-e-uma-solucao-para-rafael-leao/

  Comentários
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