DUAS CONTABILIDADES
Há duas contabilidades em Alvalade e só uma delas sabe marcar golos; SAD lucra 34,7 milhões, enquanto Clube regista 1,5 milhões
10 Out 2026 | 13:53
Há duas contabilidades em Alvalade e só uma delas sabe marcar golos; SAD lucra 34,7 milhões, enquanto Clube regista 1,5 milhões
A Sporting Clube de Portugal – Futebol SAD anunciou 34,7 milhões de lucro em 2025/26, o quinto ano seguido no verde e um acumulado de 117 milhões. Volume de negócios de 300 milhões, 187,7 milhões de rendimentos operacionais sem contar com jogadores, 80,3 milhões só da Liga dos Campeões, 65,8 milhões da venda de Gyökeres ao Arsenal, recordes na Gamebox com 9,6 milhões, na bilheteira com 8,2, na hospitalidade com 10,9 e na publicidade com 21,4. Tudo brilha. Até o passivo que disparou 71 por cento para 651,3 milhões por causa da emissão obrigacionista de 225 milhões a 28 anos e juro de 5,75 por cento. Mas com fundo de maneio positivo de 71,1 milhões e capital próprio duplicado para 75,6 milhões.
O Clube, esse, apresentou 1,505 milhões. Não é gralha. É o retrato.
A diferença não é mistério nem truque. É arquitectura. A SAD é uma empresa de futebol que vive de vender talento e de competir na Europa. O Clube é uma associação que vive de quotas, de “royalties” e de pagar a luz do Pavilhão João Rocha. O Clube detém a SAD em cerca de 64 por cento entre participação directa e indirecta via SGPS, mas nas suas contas não consolida linha a linha os 300 milhões da SAD. Regista a participação pelo método da equivalência patrimonial. O lucro da SAD só lhe chega se houver dividendo. O que lhe chega todos os meses são as facturas das modalidades.
E aqui está a tese que Alvalade - aparentemente - finge não ver. O Sporting tem dois corpos para um mesmo coração. Um que produz dinheiro e outro que produz sentido. O primeiro vende um sueco por 65,8 milhões. O segundo tem de explicar porque é que o futsal, o andebol, o voleibol, o hóquei e o atletismo valem o prejuízo que dão. Valem porque sem eles o Sporting não é o Sporting. Mas não valem no balancete.
Chamar a isto má gestão é ignorância. Chamar a isto modelo sustentável é propaganda. É simplesmente o preço do ecletismo numa Liga que só paga ao futebol masculino. Enquanto a Champions der 80 milhões e houver um Gyökeres para vender, a SAD pode financiar a poesia das outras camisolas. Quando não der, o Clube volta a ter 1,5 milhões para contar como lucro e uma história enorme para pagar.
O leão que ruge nas contas não é o mesmo que sua no pavilhão.
André Carreira de Figueiredo.
Sócio n.º 26.518-0 Scouting do Sporting Clube de Portugal (2006-2010).
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