ANTAGÓNICO COM A REALIDADE
Presidente garantiu futuro de um treinador em maio e apresentou o seu sucessor em novembro. A coerência prometida ficou pelo caminho
07 Nov 2026 | 15:30
Presidente garantiu futuro de um treinador em maio e apresentou o seu sucessor em novembro. A coerência prometida ficou pelo caminho
Em Maio, ao renovar com Rui Borges, Frederico Varandas garantiu que o treinador “é e continuará a ser” o treinador, que o clube valoriza “o processo de trabalho muito mais do que os resultados” e que “não tomamos decisões por marés”. Em Setembro, assegurou que a continuidade do técnico “nunca esteve em causa”. Seis meses depois da renovação, o clube mudou de treinador, e o presidente justificou-se com duas derrotas em que “o Sporting não foi superior aos seus adversários” e com a “gestão interna” dessas derrotas. Julgo que a maré, afinal, chegou. A comunicação vive de coerência, e quem promete demais arrisca-se a pagar a factura mais tarde.
Na despedida, o elogio foi generoso. Os resultados de Borges “foram muito bons” e “parte um grande treinador”. Só que o mesmo presidente revela que “lancei o convite a Paulo Fonseca” logo após o desaire com o Académico de Viseu, e que manteve Borges no jogo seguinte porque “era o melhor para vencer o Casa Pia”. Ora, quem diz que a continuidade nunca esteve em causa e convida o sucessor semanas depois dá aos adeptos motivos para estranhar. Tanto mais que garante que o Sporting de Borges “sempre foi dominador”, e que a gestão de duas derrotas pesou mais do que ano e meio de domínio.
Já Fonseca, que em Fevereiro dizia “só penso neste clube” a propósito do Lyon, é agora apresentado naquele que afirma ser o seu clube do coração, e Varandas recorda que ele “não queria voltar a Portugal”. Ainda assim, quando questionado se a direcção cai com Fonseca caso não haja sucesso, o presidente respondeu que “ficaria muito surpreendido se não o tivesse como treinador até ao final do meu mandato”. Certezas já as ouvimos em Maio. Haverá coisa mais antagónica com a realidade do que garantir o futuro num clube onde só o presente é que conta? O Sporting, esse, é maior do que todos, e merece quem fale menos em convicções e mais em factos.
O antagonismo com a realidade nem sempre nasce da má-fé, às vezes nasce da generosidade. Veja-se o caso do futebol feminino. Depois de vencer, pela mínima das margens, o Valadares Gaia em Alcochete, Micael Sequeira disse que era importante reagir perante um adversário forte, que “entrou muito bem no campeonato”. É um gesto elegante, próprio de quem respeita quem enfrenta, e longe de mim censurar a cortesia.
Porém, os números têm a sua teimosia. Nas três primeiras jornadas, as gaienses perderam com o Porto (3-1) e com o Racing Power (1-0) e só venceram o Rio Ave (1-0), ou seja, amealharam tão-somente três pontos em nove possíveis. Dificilmente se chamaria a isto uma entrada fulgurante. Julgo que foi um equívoco simpático e não um deslize, o de exagerar o registo do adversário para tentar engrandecer a sua vitória. Convém, contudo, lembrar o treinador que a melhor forma de valorizar um triunfo e respeitar a inteligência dos Sportinguistas é contá-lo tal como foi.
André Carreira de Figueiredo.
Sócio n.º 26.518-0
Scouting do Sporting Clube de Portugal (2006-2010).
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