O Rugido do Estádio de Alvalade
Corte com as claques foi um passo de maturidade institucional. Falta dar o passo seguinte: substituir o que era mau por algo melhor – não por nada
07 Jan 2026 | 16:48
Corte com as claques foi um passo de maturidade institucional. Falta dar o passo seguinte: substituir o que era mau por algo melhor – não por nada
O fim da centralidade das claques no Sporting não aconteceu por acaso nem por capricho. Durante anos, o apoio organizado confundiu-se com redes informais de poder, privilégios opacos e uma cultura de exceção permanente. O que deveria ser paixão tornou-se, demasiadas vezes, moeda de troca. Bilhetes, influência, intimidação e, em casos extremos, violência. A partir de certo ponto, já não se tratava de apoiar o clube, mas de condicionar o clube em nome do apoio.
O ataque à Academia de Alcochete marcou o ponto de rutura definitivo. Mesmo que a responsabilidade não fosse coletiva, tornou-se politicamente impossível fingir que tudo podia continuar como antes. O Sporting fez, nesse momento, o que tinha de ser feito: cortar com estruturas paralelas que operavam fora de qualquer lógica de responsabilidade ou transparência. Foi uma decisão dura, impopular para alguns, mas necessária e corajosa.
O problema começou depois.
O Estádio de Alvalade hoje está mais cheio, mais seguro e mais ordeiro do que esteve durante anos. A entrada dos jogadores em campo é bonita, ao som da “Marcha do Sporting”, de Maria José Valério, e do mítico “O Mundo Sabe Que”. Ainda assim, após estes minutos iniciais, nota-se que algo se perdeu pelo caminho. Não é a paixão – essa continua lá – mas a sua expressão coletiva ao longo dos 90 minutos.
Ao desmontar – legitimamente – os centros de poder informal, o clube deixou um vazio organizativo que nunca foi verdadeiramente pensado. O apoio passou a ser entregue à espontaneidade, como se milhares de pessoas, dispersas num estádio moderno, se organizassem sozinhas por milagre.
O resultado é visível: um estádio que vive o jogo de forma individual quando o futebol é, por natureza, um ritual coletivo. Não por falta de amor ao clube, mas por ausência de coordenação coletiva emocional, de criação de ambiente, de festa. A paixão existe, o rugido não.
Este silêncio tem custos que raramente entram no debate. Custos desportivos, desde logo. Um estádio vivo condiciona adversários, e sustenta equipas nos momentos de aperto. Mas há também custos identitários mais profundos. Um clube que transforma os seus adeptos em consumidores ordeiros ganha previsibilidade, perde pertença. O futebol deixa de ser catarse e perde o seu fulgor, tornando-se mais sonolento.
É precisamente aqui que o Sporting precisa de ser mais ambicioso. Entre o domínio informal das claques e o mutismo atual existe um terceiro caminho.
Vários clubes europeus demonstram que é possível ter estádios vibrantes sem entregar o apoio a redes de poder opacas. Na Alemanha, por exemplo, os clubes assumem de forma clara a existência de bancadas de apoio ativo (aktive Fanszenen), reconhecidas institucionalmente, mas sem autonomia soberana. O clube define regras, espaços e princípios, e os adeptos organizam o apoio dentro desse enquadramento. Não há líderes vitalícios, não há privilégios permanentes, não há confusão entre apoio e propriedade.
O Sporting pode – e deve – fazer o mesmo. Criar uma bancada claramente identificada como espaço de apoio ativo, com adereços, tarjas e bandeiras, acessível a qualquer adepto que queira cantar e participar, sem filiações obrigatórias.
Um espaço onde o apoio é intenso, contínuo e coordenado, mas não capturado por nenhum grupo fechado.
A dinamização do apoio pode ser feita por equipas rotativas, reconhecidas pelo clube, sujeitas a regras claras e transparência total. Quem organiza hoje não manda amanhã.
Em paralelo, o apoio não deve ficar confinado a esse setor mais vibrante. A tecnologia permite hoje algo que antes não existia: coordenação emocional em momentos-chave do jogo. Porque não serem colocados sinais simples, visuais e temporais nos ecrãs gigantes, que sigam em tempo real as iniciativas criadas por este setor mais dinâmico, e que convidem o estádio inteiro a participar?
Tal irá exigir uma mudança de atitude do próprio clube. Não basta garantir segurança e vender bilhetes. É preciso assumir que o ambiente também se constrói. Que a criação de um rugido forte e vibrante ao longo do jogo é essencial para promover cultura, paixão pelo clube, identidade e vantagem competitiva.
O corte com as claques foi um passo de maturidade institucional. Falta dar o passo seguinte: substituir o que era mau por algo melhor – não por nada.
Segurança sem emoção é progresso incompleto. O Sporting de Frederico Varandas tem feito um trabalho extraordinário na sustentabilidade financeira e na performance desportiva do clube, imbuindo-o novamente do respeito que os adversários por si sentem, da sua imponência, do seu brilho de vencedor. De campeão. Mas um grande clube, tão grande como os maiores da Europa, não vive apenas disso.
Vive também da forma como milhares respiram ao mesmo tempo.
E hoje, em Alvalade, já é hora de voltar a respirar mais alto. De rugir bem alto.
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