UM SONHO A VERDE E BRANCO
Era tudo tão mais simples se todos exigissem ser "tão grande quanto os maiores da Europa"!
Redação Leonino
Texto
31 de Maio 2020, 09:00

Sonhar todos sonhamos, uns mais outros menos, mas nem todos têm a coragem de colocar um sonho em prática, trazê-lo a ver a luz do dia, pois tal exige coragem. É assim impossível olhar para a história da nossa instituição, para fundação do nosso Sporting e não reconhecer ousadia a quem sonhou criar um Clube eclético e idiossincrático, para que se tornasse “tão grande quanto os maiores da Europa“.

As décadas que se seguiram acabaram por provar que, não só o sonho comanda a vida, mas também que qualquer sonho, até mesmo o mais impossível por ser irreverente, pode efetivamente tornar-se realidade. Algures na linha do tempo, esse sonho que fez nascer um Clube e criar para si próprio uma ideologia vencedora desvaneceu. E, desta forma, para milhares, o sonho virou pesadelo. Eu diria até que mais parece um filme de terror com direito a infindáveis sequelas!

O amor à camisola foi substituído pelo amor ao dinheiro, a paixão que nos deveria unir a todos foi substituída pela ganância de alguns. A ambição clubística de sermos indubitavelmente os melhores deu lugar a frases frequentes, tais como “o importante é participar“, “passar valores e princípios “e “para o ano é que é“! Todas estas frases feitas podem ser muito bonitas, mas, no que toca a futebol, não nos torna campeões anos a fio e ainda nos damos ao luxo de esquecermos as modalidades, quando nos anos de seca de vitórias futebolísticas foram essas mesmas modalidades que nos safaram de vergonha maior. O que é que foi feito da ideologia da nossa fundação? Onde está a fome de títulos? Para onde foi o querer sermos os melhores em tudo? O que aconteceu à ambição de “onde houver uma listada verde-e-branca é para ganhar“?

Sinceramente, ainda não consegui descortinar quando se deu esta chocante mudança de mentalidade clubística – muito provavelmente ter-se-á dado antes da minha chegada a este mundo -, mas o que é facto inegável é que com esta falta de exigência veio o amansar do reino leonino. O mundo do futebol virou savana de interesses de muitas hienas e o Leão desgastado e visivelmente abatido parece ter deixado de lutar pelo território que deveria ser seu por direito! E o que mais dói é perceber que a restante família leonina compadece-se do Leão agora amorfo e apático, mas nada faz para o ajudar a reerguer à sua grandeza e esplendor, a Glória que efetivamente merece… ama o Leão, mas em vez de ser unida e o defender, culpa a restante natureza e os seres que compõem o habitat envolvente. E quem o tenta efetivamente fazer é olhado de lado, contestado e afastado, questionado no seu amor ao Sporting!

Cresci a ouvir as mais estapafúrdias desculpas para o insucesso: “somos sempre prejudicados pela arbitragem“, “os nossos rivais não jogam limpo“, “o sistema está montado“. Até nos programas desportivos ouvi, anos a fio, que “o Sporting parte atrás dos seus rivais“, “não tem poderio financeiro suficiente” ou “não tem condições para lutar pelo título“. Com a agravante que a maioria das vezes em que estas frases foram proferidas, época após época, saíram pelos lábios de quem se diz Sportinguista! Pergunto: como é que alguém consegue estar em pleno programa televisivo a falar mal do seu próprio Clube quando deveria estar lá para o defender com unhas e dentes? Pior: como aceitar que não estamos suficientemente à altura de competir com rivais diretos, se víamos que grande parte das vezes até tínhamos melhores jogadores?

Como podemos dizer-nos tão diferentes ao ponto de não percebermos que o problema é do foro interno? Como podemos pensar em futuro, quando nem nos preocupámos em analisar o passado ou em melhorar no presente? Como pugnar só pelo futebol quando o nosso ADN assenta nas modalidades desde o início? Com esta diferenciação no ser e sentir Sporting, ainda se admiram de sermos um Clube eternamente dividido e em constante guerra internamente?

Era tudo tão mais simples se todos exigissem ser “tão grande quanto os maiores da Europa“!

Na realidade, seria a correta e única forma de defender e blindar a instituição, tanto de inimigos externos como de mau dirigismo. Se analisarem a atualidade leonina, verão que facilmente chegam à mesma conclusão: está tudo do avesso!

Fazem-se alianças, quando somos uma instituição enorme e que não precisa da caridade de ninguém! Defendem-se jogadores que estão de passagem 2 ou 3 anos, em vez de se defender os adeptos que estão sempre lá nem que vivam 100 anos!

Aceita-se que jogadores batam o pé quando querem sair, quando são meros assalariados do Sporting e, como tal, têm contrato e funções a cumprir, como acontece com o comum dos mortais no mundo laboral. Engolimos más exibições como desculpa para o insucesso, mesmo reconhecendo qualidade no plantel para muito mais.

Analisamos Relatórios de Contas escandalosos em prejuízo e aumento de passivo em 11%, quando alguém se lembra de dispensar jogadores a custo zero. Olha-se para a aquisição dos ditos ativos como um custo e não como um investimento, assim torna-se extremamente difícil de ter o retorno lucrativo, o que deveria ser uma consequência natural de qualquer gestão minimamente decente.

Neste campo, tenho de dar razão ao Dr. Varandas: “É um Clube de malucos“! Isto e muito mais poderia escrever, daria até um livro ou mais, mas hoje o foco recai sobre a crise de identidade existente entre os pilares da ideologia da nossa fundação e da atual mentalidade.

Fala-se em putativos candidatos com mandatos que vão a meio e ainda em vigor. Discute-se candidaturas, mas projetos viáveis nem vê-los! Vota-se em candidatos pela imagem e elegância, mas com muito pouca competência. Fazem-se infindáveis reuniões para debater o plano de subida à cadeirinha presidencial, mas ainda não ouvi ninguém falar com amor, com Devoção ao Clube que amo nem do Esforço ou Dedicação que estão dispostos a fazer em prol da Glória que a maioria almeja! Talvez esteja finalmente explicado o porquê de andarmos sempre a trocar de presidências…

Não consigo observar ninguém a debater uma estratégia de longo prazo e, a meu ver, essa só poderia passar pela nossa exigência enquanto adeptos, não só a nível de títulos, mas também de dirigismo capaz. É da responsabilidade de todo e qualquer Associado pugnar pelo que considera melhor para a instituição e não é com aproximação presidentes de clubes rivais que lá vamos.

Passamos a vida a escorraçar o que temos dentro de portas, seja a ideologia dos nossos sócios-fundadores, expulsão de Sócios ou claques, e isto são só os exemplos mais recentes. E onde está a grandeza disso? Não só não está, como os rivais ainda despendem horas de regozijo a fazerem de nós alvo de chacota. Continuem que eles agradecem. É que, enquanto nos debatemos internamente, eles vão ganhando terreno, poderio financeiro e títulos!

A maioria dos Sportinguistas está exausto de todo este entorno, cansado de sonhar e não realizar aquilo que verdadeiramente nos poderia unir e fazer ser felizes: “um Clube tão grande quanto os maiores da Europa“, forte e independente, voltado para os seus adeptos e interesses institucionais e não dos demais!

O Sporting é uma centenária instituição que assenta nos princípios básicos do associativismo e tem de forçosamente olhar para os seus Sócios e adeptos como os seus maiores ativos. São todos os Sócios e Adeptos Leoninos que estão sempre lá, a apoiar e a defender as nossas cores, que compram bilhetes, gameboxes, merchandising, etc., e, por isso, devem ser considerados não só como uma das maiores fontes de rendimento, mas também quem comanda os destinos do Sporting deverá finalmente ter a compreensão que somos nós que somos a alma mater. Qual seria o propósito da instituição sem a força dos seus Sócios? Para que servirá um Clube sem os seus adeptos?

Fomos considerados os “melhores adeptos o Mundo”, precisamente por termos amor ao Clube e a tudo o que faz parte do Universo Leonino. Justamente pelo que aqui descrevi não podem nunca ser descurados, desprezados e muito menos silenciados.

Houve um sonho que se tornou realidade em 1906 e que persiste até aos dias de hoje, graças à resiliência da onda de apoio verde-e-branca. Não a vejam como mera carteira ambulante nem a acarinhem só quando convém, porque ela daria a última nota que traz no bolso só para poder chorar de alegria por ver realizado o que deveria ser o eterno sonho vivido.

Para isso, o Sporting terá de ser de todos e para todos, sem exceção, sem mágoas, sem rancores, sem reservas, onde todos contam para devolver a excelência para qual o Sporting foi fundado. Para isso, é necessária esta mudança de mentalidade e, quanto mais depressa ela ocorrer, mais rapidamente haverá união, pois nesse dia todos estaremos a defender o que realmente importa: a instituição.

E não digam que isto é mera utopia, pois foi esta mentalidade e esta ideologia que os nossos fundadores vaticinaram para o nosso grande amor. E, até que tudo isto se concretize, nada mais teremos que pesadelos de angústia e infelicidade recorrentes.

Nascemos para ser Grandes, mas podíamos ser Enormes! Os nossos fundadores já o sabiam há mais de um século. Quanto mais tempo demoraremos todos nós a perceber algo tão simples?

Enquanto o Sporting não for dos Sócios e para os Sócios, não sairemos da mesmice que tanto detestamos.

Defenda-se o Clube e todos os nossos sonhos se tornarão realidade.

Saudações Leoninas,

Artigo de opinião assinado por Soraia Gale, Sócia 22735-0 e Presidente da Associação Leais ao Visconde

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