DEIXAR O SPORTING MELHOR? OLHE QUE NÃO…
Factoring e venda dos melhores ativos ‘mascaram’ contas de 2018/19 e 2019/20, mas a fórmula esgotou-se: é impensável voltar a antecipar receitas que ‘pertencem’ aos próximos mandatos
Redação Leonino
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2 de Março 2020, 12:25

Frederico Varandas não se cansa de garantir que ele e a equipa que o acompanha só têm um propósito no Sporting: deixar o Clube numa situação melhor do que aquela em que o encontraram. O Presidente do CA da SAD já disse isto um sem número de vezes durante ano e meio, referindo-se sempre à questão financeira. Entre o ‘sonho’ de Varandas e a realidade vai, no entanto, uma enorme, e quase inultrapassável, distância. Explico em três pontos:

1 – Os resultados financeiros só podem melhorar se o desempenho da equipa de futebol atingir níveis próximos dos de 2015/16, os quais garantam uma luta efetiva pelo 1.º lugar na Liga e apuramento direto para a fase de grupos da Liga dos Campeões. São esses desempenhos que garantem receitas extraordinárias na ordem dos 25 milhões, que alavancam vendas recorde de Gameboxes e bilhetes; são esses desempenhos que levam adeptos a tornar-se Sócios e ex-Sócios a liquidarem inúmeras quotas em atraso. É essa mobilização, essa euforia se quiserem, que atrai patrocinadores. É esse desempenho que valoriza jogadores. Ora, o que se tem visto em ano e meio com esta gestão é precisamente o contrário. A capacidade competitiva da equipa caiu a pique, de 18/19 para 19/20, sendo hoje apenas um candidato a lutar pelo 3.º lugar; as verdadeiras mais-valias já foram negociadas (Raphinha, Bas Dost e Bruno Fernandes), restando no plantel dois/três jogadores apetecíveis, mas apenas num mercado próximo dos 10 milhões (Acuña, Wendel e talvez Plata). Significa isto que o ‘mascarar’ das contas através da venda de ativos dificilmente se repetirá no próximo ano. Se 19/20 vai proporcionar lucro por força das vendas, já neste ano civil, de Bruno Fernandes (55 milhões) e Matheus Pereira (10 milhões), os resultados de 20/21 serão quase de certeza negativos, a não ser que o orçamento encolha 50 por cento.

2 – O Relatório e Contas do primeiro semestre de 19/20 mostra-nos o que já sabíamos: que a propaganda continua forte. A começar pelo (‘mentiroso’) crescimento da receita de Gameboxes. A receita subiu um pouco, comparando com 18/19 (bem aquém do registado em 17/18), mas fruto dos brutais aumentos levados a cabo no início da época, ou seja, diminuiu o número de compradores e cresceu a receita. Com esta medida a SAD estreitou a base de mercado: um produto que devia (deve) ser ‘popular’ deu um passo rumo ao elitismo. Todos sabemos como terminam estas medidas de gestão em qualquer empresa que tenha um negócio de massas: no buraco. Porque o foco principal deve estar sempre no alargar da base de compradores e não no afunilar da mesma. Não queria ter razão antes do tempo, mas veremos os números de vendas em 20/21…

3 – A última razão pela qual entendo que Frederico Varandas, Salgado Zenha, Miguel Cal e João Sampaio vão deixar o Sporting num estado pior do que aquele em que o encontraram prende-se com o facto de já terem utilizado receitas garantidas para além do prazo do mandato que os Sócios lhes conferiram. Sim, refiro-me à operação de factoring no valor de 70 milhões realizada pela SAD junto da Apollo, dando como colateral o contrato celebrado com a NOS. É que nesse valor total estão incluídos 20 milhões (verba relativa a quatro anos) que deveriam entrar na caixa da Sporting Comunicação e Plataformas. Para quem não sabe, dos cinco milhões/ano que esta empresa do Grupo Sporting começou a receber em 2017 pela venda da exploração da Sporting TV, a maior fatia destinava-se ao reforço do orçamento das modalidades (o restante pagava a produção da Sporting TV e Jornal Sporting). Ora, do total de 60 milhões a encaixar em 12 anos, ao fim de três anos já foram recebidos… 30! Significa que em média cada um dos próximos nove anos renderá apenas 3,3 milhões, dos quais haverá a descontar a produção da Sporting TV e Jornal Sporting. Logo, uma futura Direção, seja ela qual for, não terá esta fonte de receita no primeiro ano ou então terá a mesma muito diminuída durante a totalidade do mandato (depende do tipo de contrato que esta administração fez com a Apollo). Como está bom de ver, a competitividade das modalidades de pavilhão tenderá a baixar. Mas a do futebol profissional também, porque a SAD, nos próximos oito anos, apenas terá a descontar cerca de 25 milhões/ano do contrato de direitos televisivos e publicidade da camisola. Por último, como até final do atual mandato é inimaginável assistirmos a nova operação de factoring, a fórmula utilizada pela equipa de Varandas para ´mascarar´ as contas dos dois últimos anos (factoring e venda de passes de jogadores) esgotou-se. Preparem-se, pois, para o aperto financeiro.

P.S. Quando entrou, Varandas destacou a herança de uma dívida de 40 milhões a clubes e agentes, para justificar a má gestão de Bruno de Carvalho. Se saísse amanhã da Sporting SAD que dívida a clubes e agentes deixava Varandas de herança? Está no ReC: 50 milhões!

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